Atalhos de Campo


30.9.14

o que nos sobra

Aproximou-se de mim, apoiou a cabeça nos meus joelhos e olhou para cima, para me dizer com aquele olhar suplicante de quem sabe que o tempo se esgota: toma, é teu o meu melhor tempo (e não tenho muito). Eu fiz-lhe uma festa na cabeça, e ela sentou-se ao cimo da folha, à espera. Depois, enquanto eu hesitava com o caminho das palavras, percebeu que ia demorar; deu duas voltas, começou a raspar para se aninhar, enrolou três linhas para fazer uma cama, e adormeceu. Eu não me zanguei com ela, afinal só tinha ainda escrito uns rabiscos, recomecei mais abaixo, e deixei-a a dormir no papel amarrotado. De vez em quando suspira e espreguiça-se, entreabre um olho com paciência, então isso vai?, parece perguntar com as pestanas. E passa mais meia hora, meia hora de cão não tem grande importância, pensam as pessoas,  e depressa se esquecem disso. Sei que tu queres que eu escreva bola e depois atire, que escreva festa comprida ao longo do pêlo, e depois faça, que escreva migalha na ponta dos dedos, e depois dê. Agora é a vez do outro olho, um berlinde pronto a entrar neste jogo. Ainda não? Agora escrevo Não, em silêncio. É que estou aqui com um problema, como é que vou explicar isto, estamos as duas com meia-idade, mas  vai haver um dia em que tu não vais mais adormecer aí, nesse sítio, que me está a dar tão mau jeito... 
Então digo: Vamos. E depois escrevo limpo, com as costas das mãos.

Amar um cão

29.9.14

Música para estetoscópio



Músicos com uma formação clássica, que tocaram Bach
e Dowland e ouviram Schubert, Bartók, Cage, Stockhausen,
Beatles e Cohen, que formaram os seus grupos musicais como
os National ou os Arcade Fire, apostam numa nova música,
que se manifesta muito mais ao ritmo da respiração,
do coração e do cérebro, do que ao ritmo do corpo e da
estrada.
Estetoscópio já tenho, falta-me o castelo. 



Um eremita, um castelo, e um estetoscópio



Nas guerras estilísticas do século XX, o que gente
como John Cage ou Steve Reich fez foi desbravar o
caminho de acesso a um imenso território que permi-
tiu que músicos como nós existissem e nos sentís-
se-mos livres para determinar o nosso rumo, inde-
pentemente do estilo, do género musical ou do facto
de tocarmos guitarra ou qualquer outro instrumento.
Há uma sensação de liberdade que é muito revigorante.

Bryce Dessner, guitarrista e compositor dos National
membro do Kronos Quartet
Entrevista ao Expresso/ Atual 23/8/14 João Lisboa 

Choupos

São sempre os choupos os primeiros a sentir o vento
 

28.9.14

Super 8

Apareceste agitado, mãe tens que ver isto, estavas linda - dizias, enquanto ligavas o cabo do computador à televisão. Eu achei logo estranho, os filmes do início das nossas férias, o ar cansado, a faculdade, as horas infindáveis de explicações, as tuas pernas a crescer enquanto corrias à minha frente, e as imagens que se escondiam entre os borrões do tempo, para reaparecerem noutro verão. Espero que ninguém esteja a ver isto, e eu a tapar a cara com as mãos, já não quero  que me filmes, filma antes o céu,  filma a rivalidade entre os papagaios de papel e os aviões, filma a pele nacarada das camarinhas que rebentam entre os pinheiros e os dentes, e cheiram a vento e a maresia; filma antes as ervas vergadas ao orvalho, como dedos pousados ao de leve sobre a primeira maçã.

« Dark was the night, cold was the ground »

26.9.14

Foi-se






















Daqui a muitos anos alguém vai perguntar, o que é aquilo, e depois do silêncio alguém vai responder, aquilo foi um gesto.

Trompe-l'oeil

Natureza-morta com sementes de pimento vermelho
contra fundo azul.

25.9.14

O amor é um pássaro rebelde

Carmen é a zínia vermelha, a elegante cigana, a mulher que enfrenta os seus desígnios e morre por eles. Sem nenhum complexo põe uns brincos de plástico de várias cores, simplesmente porque gosta de subverter o instituído. É atraída pelo luxo e pela festa, é provocadora e irreverente, poderia vestir-se na Zara e ter no pulso um Rolex. Como este lustre criado por Joana  Vasconcelos, esta mulher jamais perderia a sua desenvoltura, transgredindo as regras de qualquer palácio, trazendo consigo  alegria e tragédia, carregando o veludo negro da sua sina.

Zinnia elegans


Quando alguns homens choram



Jonas Kaufmann, aos 40 anos, interpretando D. José
com a melhor voz de tenor/barítono da actualidade,
há cinco anos como em 1875, como agora, um desgosto
de amor, chorando a sua Carmen; Brel em Ne me quitte
pas, chorava em 1959 a perda de Suzanne Gabriello,
numa das mais belas canções de sempre;
Stromae(Paul van Haver), talvez chorando a ruptura com 
a modelo Tatiana Silva  em 2012, canta Formidable, a si-
mular uma ressaca de amor junto à estação de metro Louise/
Louiza, em Bruxelas; Paul Éluard com a morte inesperada
de Nusch em 1946, escreve O Tempo Transborda.
Stromae parece que compôs Formidable inspirado por
L'Ivrogne de Jacques Brel, que admira, sabe hoje
aos 29 anos tal como Bizet em 1875, que « o amor
é um pássaro rebelde », uma das suas árias preferidas
da Carmen. Bizet morre sem assistir ao sucesso de
Carmen, mas Stromae tem mais de 91 milhões de visualiza-
ções do seu video clip, "Formidable".
Quando alguns homens choram, o tempo transborda.

24.9.14

Na rua



(...)
O solitário aprende a andar de lado
A parar quando se sente ébrio de solidão
O solitário caminha em todas as direcções
Vagueia rompe esquiva-se simula
Move-se mas sem tardar
Tudo remexe e lhe mete medo
O solitário mal o chamam
Faz-se todo pequeno minúsculo inexistente
Faz de conta que não ouve
(...)
Paul Éluard/ Du Fond De L'Abîme

Saída de emergência

(...)
Os melancólicos eram tudo menos loucos
Eram conquistados deglutidos rejeitados
Pela massa opaca
Dos monstros práticos
(...)
Paul Éluard/ Du Fond De L'Abîme

Estatística 0








Même quand nous dormons nous veillons l'un sur l'autre
Et cet amour plus lourd que le fruit mûr d'un lac
Sans rire et sans pleurer dure depuis toujours
Un jour après un jour une nuit après nous.

Paul Éluard/ Même quand nous dormons

23.9.14

Cronos e Kairos

A sabedoria grega(que a todos, de uma maneira ou de outra, nos forma) representa a experiência do tempo pelo mito de Cronos, esse deus implacável que come os próprios filhos! E muitas vezes é essa experiência de desgaste, de devoração, essa experiência inexorável de perda, que fazemos. Nas nossas vidas deixou de haver espaço para o presente, porque sentimos o tempo como uma deglutição infinita onde estamos colocados. Verdadeiramente só nos apercebemos do tempo quando ele passou, tal como nos apercebemos do que são as coisas quando elas já não são. Mas mesmo os gregos consideravam que o "cronos" não esgota todas as possibilidades do tempo, pois empregavam a par dessa, uma outra designação:"kairos", isto é, o tempo como oportunidade. Penso que a nossa vida está muito entre as duas categorias: o "cronos", esse tempo que nos devora, e o "kairos", esse tempo interno que nos diz: é agora, pode ser agora; é aqui, pode ser aqui.

José Tolentino Mendonça/Expresso Revista 28/12/13

Guarda o Verão

Doce de tomate 2014

22.9.14

Paisagem invertida

If something is boring after two minutes, try
it for four. If still boring, then eight.
Then sixteen. Then thirty-two.
Eventually one discovers that it is not boring at all.
John Cage

O voo de Suzanne

Se estivesses aqui dava-te o braço, e passeávamos
nas tréguas da chuva por entre choupos e pássaros;
veríamos as galinhas atarefadas a esgravatar na terra
húmida, os borregos tão brancos e juntos a brincar
como crianças num infantário, e as ovelhas a berrar
por eles como mães-galinha; e íamos rindo e vendo,
e parando para tu descansares um pouco o teu olhar da
cor das árvores, tão quietas como este sol submisso
do primeiro dia de Outono. E talvez nos lembrássemos
de quando levei a Suzanne para nossa casa, e aí 
tomaríamos o caminho da ribeira como náufragos 
do passado, ao som daquela voz antiga e consensual
que nos enchia os domingos, até que nos pedias para
pormos - só mais uma vez - o pastelão.
Era a alcunha ternurenta que lhe davas, mas nessa
altura não  sabíamos como agora, porque nos disse,
que uma assinatura não rouba a liberdade.

Ao meu pai 

21.9.14

Uma enxada


É preciso ter uma enxada, diziam,
referindo-se a um curso superior.


Convite para jantar

O que resta das minhas casas
são estes sacos de pó com etiquetas,
que guardo em prateleiras brancas do Ikea
por ordem decrescente de sentimentos,
ou de desgostos,
ou talvez pela cor,
O pó das cidades é mais escuro
e depende das ruas,
vivi numa rua de pó negro com nome de santa.



Olho para esta paisagem de costas voltadas,
no relógio está a passar uma ovelha
com o seu novo borrego,
entre as duas e as cinco da tarde.
São horas de começar a varrer o outono,
é preciso escondê-lo da troça do verão.
O jantar é uma galinha branca
que ainda anda aos tombos na minha cabeça,
presto-lhe a última homenagem
com um avental do Four Seasons
e batatas velando em volta,  
antes da cremação.





A mesa espera com velas
e rosas em jarras altas,
que a noite vai espiando
pelas janelas acesas.
A música morreu na toalha branca
com os copos preparados
para os amigos que não chegam,
ou talvez já se tenham ido embora,
ou talvez nunca tenham existido. 
Quem morará nesta casa
tão limpa, tão brilhante, tão serena,
tão só,
em que as formigas roubaram
as sementes ao tempo.

19.9.14

As sementes que estremecem









Em cada fruto a morte amadurece,
deixando inteira, por legado,
uma semente virgem que estremece
logo que o vento a tenha desnudado.

Eugénio de Andrade/ As mãos e os frutos

As árvores que dão pássaros

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo/Algumas proposições com pássaros
         e árvores que o poeta remata com
         uma referência ao coração

Outonal


To kilt or not to kilt

17.9.14

A luz e o brilho

Uma decepção, um quintalinho, e ainda por cima difícil de lá chegar, disseste-me tu sobre Giverny, e eu pensei que talvez não tivesse sido naqueles três dias únicos no ano em que tudo está maravilhoso, que talvez fosse uma injustiça sobre o Monet que passou quarenta anos a jardinar, mas sobretudo um elogio ao pintor que conseguiu impressionar-nos com a sua maneira de olhar, em que não há limites mas sugestões, em que não há reflexos mas uma luz e um brilho que ultrapassam em muito a verdade, e que nos criou com o seu olhar a ilusão de ter um jardim grande.

Hino em azul maior


16.9.14

A leitura e a escrita

Cada vez se lê menos, mas cada vez se escreve mais,
ou seja, vai havendo uma tendência para que os
escritores se leiam uns aos outros.

Julgava eu que era romântica


Fui à procura daquele anúncio do Nescafé, quantas vezes me senti assim, debaixo da tempestade, a precisar de ver o mar e de estar comigo mesma, até que uma pequena luz despontasse para poder continuar a não me arrepender de estar viva. Agora, tantos anos depois, foram acontecendo tantas coisas tão melhores que antes, tantos presentes do futuro. Quando te contei isto, tu começaste a cantar a letra do Johnny Nash e disseste, sabes até comprei uma resistência daquelas, para ligar ao isqueiro do carro.
Julgava eu que era romântica. 

Sozinha debaixo do céu

Bach is, for me, the touchstone that keeps my
playing honest, disse Hilary Hahn, que toca com
uma réplica do Il Canonne(de 1864) de Paganini,
e fala da experiência surreal de tocar a Chaconne
de Bach sozinha num palco de concerto. Mas aqui,
mal sabe ela, tocou sozinha debaixo do céu. 

14.9.14

Luar remasterizado

Volto para o Alentejo, já de noite, depois de um raid cultural  a Lisboa - Woody Allen e muita Fnac - e venho a pensar na minha cidade suja e grafitada.
Volto do Chiado de electrico, faço o percurso antigo no 28, mas agora já não há lugar para me sentar, saio ao cimo da rua e olho para a casa antiga onde morei, que tem a janela aberta onde era a minha antiga sala, mas falta-lhe um brilho ( o do espelho enorme em que se reflectiam as árvores em frente), continuo a pé o mesmo caminho que fazia até às Amoreiras, quando ia ao cinema exactamente à mesma sessão do fim da tarde, a rezar para não encontrar ninguém conhecido, e a pensar na frase de Nietzsche, aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes, enquanto o luar mágico que vejo pelos campos é de lua imensa, e esfarrapada.

A marcha atrás

Tece, tece, minha robusta vida,
Tece mais um soldado, vigoroso e preparado para grandes campanhas que hão-de vir ,
Tece o sangue vermelho, tece os músculos como cordas, tece os sentidos e a vista,
Tece firmemente para que dure, tece dia e noite a teia, a urdidura, tece sem parar, sem te cansares,
(Ignoramos para quê, ignoramos a intenção, o fim, nem, na verdade, sabemos seja o que for,
Mas conhecemos a obra, a necessidade continua e há-de continuar, a marcha da paz, envolta em morte, há-de continuar como a guerra,)
Para as grandes campanhas de paz tece do mesmo modo os duros fios,
Ignoramos porquê e para quê, mas tu, ó vida, tece, tece, tece sempre.

Walt Whitman

A terra vista do céu



12.9.14

Terra seca


Tentei tudo, menos vê-la de longe.



O silêncio do luar e os olhos da noite

São quatro horas da manhã, e há um borrego no campo a balir com insistência, enquanto os cães ladram. Usas a lanterna, para tentar perceber o que se passa, a ovelha recém parida só cuida de um dos borregos, o outro chama, deitado, e ainda mais vulnerável entrega-te o luar na sua brancura angustiada carregado de pios de coruja, sons inquietos e ameaçadores, queixumes, estalidos, medos, enquanto os vultos das ovelhas imóveis e irregulares se destacam como relevos de  sombra com dois pequenos pontos brilhantes, dezenas, virados para ti, a devolver o foco de luz que lhes apontas, como olhos da noite. Dormes mal até teres a certeza de que nada aconteceu, e de perceberes que o luar te ensina a sentir o rebanho, e a interpretar o seu silêncio.

11.9.14

Mannahatta

Pedia qualquer coisa de particular e perfeito para a minha cidade,
E eis que me surgiu o seu nome indígena.

Agora vejo o que há num nome, numa palavra:líquido, robustez, rebeldia, música, auto-suficiência,
Vejo que a palavra da minha cidade é uma palavra vinda de outros tempos,
Porque vejo essa palavra aninhada em ninhos de baías, soberba,
Rica, densamente orlada de navios à vela e a vapor, uma ilha com dezasseis milhas de comprimento, solidamente fundada,
Inúmeras ruas apinhadas, altas construções de ferro, esguias e fortes, leves que se erguem esplêndidas para os céus límpidos,
Marés rápidas e amplas, por mim tão amadas ao entardecer,
As correntes marítimas, as ilhotas, e perto das grandes ilhas, as elevações, as vilas,
Os inúmeros mastros, os vapores brancos que percorrem a costa, as barcaças, os barcos, os negros transatlânticos com formas perfeitas,
As ruas no centro da cidade, as casas de negócio dos corretores e as casas de negócio dos mercadores marítimos e dos cambistas, as ruas junto ao rio,
Os imigrantes que chegam, quinze a vinte mil por semana,
As carroças que recolhem as mercadorias, a raça viril dos cocheiros, os marinheiros de rostos morenos,
O ar estival, a intensa luz solar e as nuvens que flutuam lá no alto,
As neves do inverno, as campainhas dos trenós, o gelo quebrado no rio, que sobe e desce com a corrente da maré-cheia ou da maré-baixa,
Os trabalhadores da cidade e os mestres, bem proporcionados, com rostos belos e que nos olham de frente,
Os trottoirs cheios de gente, os veículos, a Broadway, as mulheres, as lojas e a montras,
Um milhão de pessoas- de maneiras livres e soberbas - vozes francas- acolhedoras- os jovens mais corajosos e cordiais,
Cidade de águas apressadas e refulgentes! cidade das cúpulas e mastros!
Cidade aninhada em baías! a minha cidade!

Walt Whitman (1855)

The go-between and The falling man

9.9.14

Memória de alcatruz

Como Nietzsche.

Um pescoço onde encostar a cabeça.
 

Os cavalos também se abatem

A neve amontoara-se em cima do trenó e já o cobria, mas ainda se viam os varais e o lenço. O Zaino, enterrado na neve até à barriga, com a retranca e a serapilheira caídos, estava todo branco e encostava a cabeça morta ao pescoço hirto; das narinas pendia-lhe gelo, os olhos também estavam cobertos de geada e sincelo, como se fossem lágrimas. Só naquela noite, emagreceu tanto que ficou esquelético.

Lev Tolstói/ O Patrão e o Moço de Estrebaria

8.9.14

Surrealista praticante



Para  Dali, as datas e os factos não são mais que
oportunidades para transpor o presente e criar o
futuro de acordo com os seus princípios de paranóia-
crítica que permite viver vários presentes de uma
situação ou suscitar tantas imagens diferentes quantas
a capacidade imaginativa criar. Verificámos com a
maior precisão os acontecimentos da sua surpreendente
existência, mas sabendo que o essencial se encontava
menos na verdade do pormenor que na visão profunda
de um caminho e na análise que ilumina este destino
fora de série.

André Parinaud/ Comment on devient Dali (Preâmbulo)


7.9.14

Rentrée

« sea-shade-dog »


Fecho o livro do desassossego, está na hora de regressar. Já passaram três dias e, lembras-te, as férias acabaram, por isso tu, a criança que trouxe comigo, pegas com a mão direita nessa ponta de mar do teu passado plano e liso, e mostras-me o teu segredo. Adormeceu um cão à porta do teu mar, um enorme guardião de sal e de areia está a dormir à sombra desse mar da tua infância, com a coleira larga de algas e de estrelas e de conchas, dono das tuas marés e do teu início. Sorris-me, estendes-me o búzio que trazes na mão esquerda, e pedes-me para o levar comigo. Atrás de ti um corpo dourado e cigano, uns olhos perdidos na lonjura de tanto azul, metálicos de tanto verde e brilho e espuma, enigmáticos de tão cinzentos, e fundos de tanta tormenta contida e escarpada. Fecho o livro, e subo a escada com os degraus de rocha e o corrimão de ferro ferrugento onde apoio a mão direita, até chegar a meio, à parte de madeira onde me volto, para de longe olhar para mim.

6.9.14

Cigano de olhos azuis





Cigano de olhos azuis
é difícil encontrar-te o olhar
O brilho é das tempestades
a cor é do fundo do mar.

era só isto, um choro entre as rochas








A arte consiste em fazer os outros sentir
o que nós sentimos, em os libertar deles
mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade
para especial libertação.

Fernando Pessoa/ O Livro do Desassossego 

A retalho

(...)
I'm selling my memoirs, I'm
writing it down
If no one will pay me I'll burn down the town
I'll rent out an aircraft and 
print  on the sky
If God likes my story then 
maybe He'll buy
                                
I'm buying a ticket for places unknown
It's only a one-way, I'm not coming home
She's swallowed my secret and taken my name
To follow my footsteps and knobble me lame

Sair de aqui





    A  procura da verdade - seja a verdade subjectiva do convencimento, a objectiva da realidade, ou a social do dinheiro ou do poder - traz sempre consigo, se nela se emprega quem merece o prémio, o conhecimento último da sua inexistência. A sorte grande da vida sai somente aos que compraram por acaso.

    A arte tem valia porque nos tira de aqui.

Fernando Pessoa/ O Livro do Desassossego


5.9.14

Habito a sombra


  Horas-pálios submersos, meras roupas de pompa morta
aparecidas moles entre águas, como algas levadas por
acasos de corrente, lentas entre esquecimentos.
  Entardece nas minhas ilusões. Vela-se de bruma o ho-
rizonte dos meus desalentos. Entre ventos débeis, bri-
sas doentes, sente-se o ar incoerente ser gente.

 
   Habito a sombra e o sol morreu comigo.

Fernando Pessoa/ O Livro do Desassossego