Atalhos de Campo


23.8.14

se não fossem os gatos

São quase nove horas de um fim de dia de Agosto, de um qualquer, da primeira quinzena.  Já desmontaram a esplanada e ali estamos, a nossa mesa é uma ilha metálica no meio da rua suja, ao lado de uma pilha de cadeiras e de mesas, de papéis que voam, de lixo varrido pelo vento; passa por nós gente apressada com as últimas compras para o jantar, param carros no último sinal vermelho, tão próximo que se ouvem as músicas pelos vidros abertos, acendem-se as primeiras luzes, começa a ficar desconfortável. Fazemos mais um brinde, talvez ao próximo Agosto, talvez ao primeiro dia de Outono, talvez a um lar da terceira idade em que se passe só um dia, o último da vida, com um nome inventado, tal como martinar, entre os risos e os silêncios dos pequenos golos do fim do martini. Está tudo a ser filmado, mas só tu é que sabes sobre o fim desta curta-metragem, sobre esta última representação, sobre este último papel que me fizeste improvisar. Levantamo-nos e tu despedes-te, tal como dizes olá ou boa tarde, e eu tenho pensado muitas vezes que se não fossem os gatos nunca nos teríamos conhecido, mas claro que isso já é posterior, o pensamento bem entendido, porque o filme já estava concluído. Já não é possível emendá-lo, agora que passaram dois Agostos sobre o teu desaparecimento misterioso, deslizando como uma bailarina, ou talvez como uma gata, até dobrares a última esquina entre nós, como numa cena de filme antigo, passado na Cinemateca, com um único intervalo, mesmo antes do fim.