Atalhos de Campo


28.8.14

O touro enraivecido *


Lembrei-me de ti, foi ontem por causa do Picasso, da Guernica, não sei bem precisar, talvez por causa daquela toureira do Almódovar com quem ninguém sabia falar, ou do touro que não queria lutar, que só queria que lhe contemplassem a beleza de pedras do rio, e de flores que pediam paz. Lembrei-me que um dia também eu te vi a lutar com um homem, que fui lá ver-te para ter a certeza de que nunca mais lá iria, com tanto sol e tanta sombra, mas para mim foi demasiada sombra, uma sombra que foi crescendo até me engolir, até me deixar de rastos. A praça era linda, Olivença, aqueles arcos, a arena, só a praça ter-me-ia chegado, vê-la vazia e em silêncio teria sido perfeito. Eu sabia que não ia assistir a uma dança com toiros, que o Pedrito de Portugal não era só um bailarino que ia dançar contigo, nem mesmo quando começou, com quinze anos. Mas tu és a força bruta, e quando a lide  que é faena começa, há  uma técnica para te quadrar e é preciso que isso aconteça depressa, ao ritmo da festa, das palmas, do objectivo, engalanar-te com ferros, sangue e arte. Tu não percebes nada, investes para matar, que é assim que te exigem, é um jogo de matar ou morrer, um jogo perigoso, inventado pelo homem. Por isso morreste seis vezes, de vinte em vinte minutos, porque donde vens o jogo não é assim, pode ser de morte, mas com um sentido para a vida.