Atalhos de Campo


2.8.14

Num outro tempo como hoje

 Cecil Taylor um percussionista do piano, que acabou o concerto de abertura de há três anos com um longo poema, o legendário baterista Sunny Murray, cuja performance me decepcionou há dois, John Zorn que nos deu uma lição de surf no ano dos seus sessenta, e ontem com James "Blood" Ulmer a conseguir despedir-se do público,(que enchia o anfiteatro da Gulbenkian ao ar livre), com um adeus de palmas com muitas palmas de  mãos, sinto sempre que esta é a minha aposta de jazz anual, a que não falto há anos, fiel mesmo que a aposta, agora mais moderada, tenha sido demasiado free noutros tempos. Gosto de tudo o que tem a ver com este encontro; de chegar cedo para observar o ambiente, de dar uma espreitadela aos livros, de comer qualquer coisa no bar, enquanto vou ouvindo as conversas e percebendo as diferenças entre fãs de grupos ou tipos de música, observando as t-shirts que vestem, o negro como opção, e a idade avançada de alguns,(a mesma de alguns dos génios), particularidades dos que como eu, têm como culto esta música tão citadina e inquieta, inquietude que quem a ama nunca perderá. Por fim, arranjamos lugar nessas noites de árvores iluminadas, para assistir a concertos de gentlemen em que todos tocam para cada um poder brilhar em separado, (e ser aplaudido por isso), e para ouvir esta conversa trocada entre instrumentos de amigos (em que é desejável que se levante a voz e se seja irreverente para não estragar a amizade), o que  torna mágica a cidade em que acontece, exactamente porque tudo continua a acontecer, como nos lembram os aviões que passam baixo, mesmo sobre nós, fazendo troar um lapso de destino, ou os pássaros que levantam voo, apenas para mudar de árvore. Na madrugada de dia 25 de Agosto de 1988, horas depois de Ornette Coleman actuar na Gulbenkian com a Prime Time Band, ardia o Chiado, uma recordação triste numa noite alegre como esta, há quase vinte e seis anos e sempre como hoje, Lisboa.