Atalhos de Campo


20.8.14

a fuga da arte

Havia aquele quadro que se destacava de todos os outros, pelo menos para mim. Era um óleo enorme com um gato a dormir, um gato branco, deitado numa manta, em simbiose perfeita com ela: estavam ambos a dormir, preenchiam ambos toda a tela, a manta todos os espaços livres que o gato deixara e o gato todo o espaço não ocupado por ela, que tinha cores suaves e se aninhava nele, tanto como ele nela, num sono bom, um sono de gato. Todos os outros quadros eram sobre gatos, nas mais variadas posições: havia pares de gatos, gatinhos, o típico gato vadio, vagabundo e magro, ou  o obeso e sedentário, representados em óleos, colagens, tamanhos variados e multicores, naïfs ou sofisticados. Quando me apresentaram a artista, não resisti a dizer-lhe que se percebia que gostava de gatos pela forma como tinha conseguido retratar tão bem a vida deles, ao que ela respondeu afirmando que não gostava de gatos, que gostava apenas de os observar pela janela do atelier.