Atalhos de Campo


31.8.14

Natureza, naturalismo e hesitação.

(...)A natureza é o puro e não adulterado, o que mais nos convém, o que havia no princípio, o esquecido, traído, perdido; também o estável, o que tinha em si mesmo razão de ser, o que não havia que justificar com truques convencionais e artimanhas dialéticas porque já estava espontaneamente aí sem pedir permissão a ninguém. Quanto mais recente, quanto mais inequivocamente moderno é algo, pior: o artificial é o arbitrário, o caprichoso, o egoísta, o injustificável e destruidor.(...)

Fernando Savater/ O  meu Dicionário Filosófico
n. 30/8/2014


Abre os olhos ...e fecha a boca

Rui Chafes







Puro

Esta palavra não é um conceito, nem um defeito, nem um vício, nem uma qualidade. É uma palavra da solidão. É  uma palavra só, sim, é isso, uma palavra muito curta, monossilábica(em francês, pur) . Só. É, sem dúvida, a palavra mais «pura», junto da qual e depois da qual as equivalências se apagam por si e passam a estar, para sempre, deslocadas, desorientadas, flutuantes.

Esqueço-me de dizer: é uma das palavras sagradas de todas as sociedades, de todas as línguas, de todas as responsabilidades. No mundo inteiro é assim que as coisas se passam com essa palavra.

Marguerite Duras/O Número Puro

30.8.14

O pó dos caminhos


Intocável porque indigna, chego à noite
com os pés sujos pelo pó dos caminhos.

Penser sur l'herbe

Passam os dias, e procuro não me esquecer da frase que escrevi em epígrafe, como mote para este blogue. A arte eleva-nos acima da verdade que é o homem, e é isso que cada vez mais me interessa. Sei que é um caminho solitário, não procuro ter "seguidores", apenas atravessar as estações de um ano fazendo uma decantação da vida passada, minha e de algumas(poucas)pessoas que se cruzaram comigo, determinantes neste percurso sinuoso e de muitos atalhos, talvez sem arte mas pela arte, como redenção. Como já escrevi antes, não tenho um minuto de tédio, porque em todas as tarefas que uma quinta exige me acompanham a memória e o pensamento, que nunca me darão tréguas. Quando já se cumpriram quase quatro meses sobre o início desta espécie de diário, sinto que está na altura de agradecer a todas as pessoas que o têm visitado, e me acompanham neste rumo  entre a arte e a verdade, ao vento, ao sol, à sombra, à chuva, ao luar, e de noite, entre retalhos.

28.8.14

eu hei-de amar uma pedra













fala-se de uma pedra
fala-se de outra pedra
e de outra       e mais
dos joelhos marcados

Pedro Tamen
Rua de Nenhures

A ruminação

O touro enraivecido *


Lembrei-me de ti, foi ontem por causa do Picasso, da Guernica, não sei bem precisar, talvez por causa daquela toureira do Almódovar com quem ninguém sabia falar, ou do touro que não queria lutar, que só queria que lhe contemplassem a beleza de pedras do rio, e de flores que pediam paz. Lembrei-me que um dia também eu te vi a lutar com um homem, que fui lá ver-te para ter a certeza de que nunca mais lá iria, com tanto sol e tanta sombra, mas para mim foi demasiada sombra, uma sombra que foi crescendo até me engolir, até me deixar de rastos. A praça era linda, Olivença, aqueles arcos, a arena, só a praça ter-me-ia chegado, vê-la vazia e em silêncio teria sido perfeito. Eu sabia que não ia assistir a uma dança com toiros, que o Pedrito de Portugal não era só um bailarino que ia dançar contigo, nem mesmo quando começou, com quinze anos. Mas tu és a força bruta, e quando a lide  que é faena começa, há  uma técnica para te quadrar e é preciso que isso aconteça depressa, ao ritmo da festa, das palmas, do objectivo, engalanar-te com ferros, sangue e arte. Tu não percebes nada, investes para matar, que é assim que te exigem, é um jogo de matar ou morrer, um jogo perigoso, inventado pelo homem. Por isso morreste seis vezes, de vinte em vinte minutos, porque donde vens o jogo não é assim, pode ser de morte, mas com um sentido para a vida.   

26.8.14

liberdade


Ao ovil

É de manhã cedo e agora é a vez dos diagnósticos de gestação. Não são muitas as dúvidas, há algumas ovelhas em gestação avançada, facilmente reconhecíveis, que vão parir dentro de aproximadamente um mês e que convém que o façam em local seguro, mas outras, as mais jovens ou as que pariram mais recentemente, podem também estar cheias com dois meses ou mais de diferença das primeiras (para um total de cinco meses, que é o tempo de gestação de uma ovelha), o que é impossível de certificar a olho nu. Faz parte do maneio do rebanho ganhar tempo diagnosticando precocemente as gestações, para deixar com o carneiro só as fêmeas que eventualmente não engravidaram, e controlar problemas de infertilidade. A penumbra do ovil é o local indicado para colocar o ecógrafo e conseguir improvisar uma manga no corredor, onde uma a uma vão sendo agarradas todas as fêmeas, para em poucos segundos se descobrir com a sonda se há corações novos a bater no rebanho, e marcar as positivas.


   

Com ferros se marca

Marcas feitas para durar, resistentes à chuva por muito tempo e ao sol de verão, são feitas na lã com uma tinta própria, e bem fixadas com um ferro. É assim que são assinaladas as certezas de gestação após ecografia nos casos duvidosos, para que possam ser identificadas facilmente, no seio do rebanho.
  

Não me digas que voaste

À demain

25.8.14

Libera me

Voltar às raízes



Começou a cantar ainda antes de andar,
cresceu na quinta dos pais, onde aju-
dava nas actividades agro-pecuárias.
Os seus agudos eram perigosos porque
costumavam partir os vitrais das igre-
jas, e um dia partiram um vidro de um
brinco seu, enquanto cantava. Era sueca
e foi das maiores sopranos de todos os 
tempos, foi Isolda, Elektra, Turandot,
e rainha dos palcos, mas voltou ao campo
para continuar o trabalho interrompido, e
morrer na mesma casa onde tinha crescido.

23.8.14

Outro martini, se faz favor

A melancolia pode às vezes ser isto,
um modo de sobreviver ao vazio, o
comovido jeito de pôr a mão sobre o
mármore da mesa e pedir outro martini,
fresco se faz favor.

Manuel de Freitas

se não fossem os gatos

São quase nove horas de um fim de dia de Agosto, de um qualquer, da primeira quinzena.  Já desmontaram a esplanada e ali estamos, a nossa mesa é uma ilha metálica no meio da rua suja, ao lado de uma pilha de cadeiras e de mesas, de papéis que voam, de lixo varrido pelo vento; passa por nós gente apressada com as últimas compras para o jantar, param carros no último sinal vermelho, tão próximo que se ouvem as músicas pelos vidros abertos, acendem-se as primeiras luzes, começa a ficar desconfortável. Fazemos mais um brinde, talvez ao próximo Agosto, talvez ao primeiro dia de Outono, talvez a um lar da terceira idade em que se passe só um dia, o último da vida, com um nome inventado, tal como martinar, entre os risos e os silêncios dos pequenos golos do fim do martini. Está tudo a ser filmado, mas só tu é que sabes sobre o fim desta curta-metragem, sobre esta última representação, sobre este último papel que me fizeste improvisar. Levantamo-nos e tu despedes-te, tal como dizes olá ou boa tarde, e eu tenho pensado muitas vezes que se não fossem os gatos nunca nos teríamos conhecido, mas claro que isso já é posterior, o pensamento bem entendido, porque o filme já estava concluído. Já não é possível emendá-lo, agora que passaram dois Agostos sobre o teu desaparecimento misterioso, deslizando como uma bailarina, ou talvez como uma gata, até dobrares a última esquina entre nós, como numa cena de filme antigo, passado na Cinemateca, com um único intervalo, mesmo antes do fim.     

Martinar



já ninguém se lembra do teu nome

20.8.14

Do not disturb

Cat silly season

a fuga da arte

Havia aquele quadro que se destacava de todos os outros, pelo menos para mim. Era um óleo enorme com um gato a dormir, um gato branco, deitado numa manta, em simbiose perfeita com ela: estavam ambos a dormir, preenchiam ambos toda a tela, a manta todos os espaços livres que o gato deixara e o gato todo o espaço não ocupado por ela, que tinha cores suaves e se aninhava nele, tanto como ele nela, num sono bom, um sono de gato. Todos os outros quadros eram sobre gatos, nas mais variadas posições: havia pares de gatos, gatinhos, o típico gato vadio, vagabundo e magro, ou  o obeso e sedentário, representados em óleos, colagens, tamanhos variados e multicores, naïfs ou sofisticados. Quando me apresentaram a artista, não resisti a dizer-lhe que se percebia que gostava de gatos pela forma como tinha conseguido retratar tão bem a vida deles, ao que ela respondeu afirmando que não gostava de gatos, que gostava apenas de os observar pela janela do atelier.   

ensina-me a desenhar uma casa


18.8.14

A sesta

Os gatos dormem a sesta, sempre. De manhã cedo aparecem frescos, mas ainda não se deitaram. São noctívagos por natureza, irrequietos e caçadores de qualquer coisa que mexa. Por isso a certa altura desaparecem e...dormem, muito, enquanto nós trabalhamos e estamos activos, eles dormem uma boa soneca; é o seu ciclo de vida natural, ainda mais acentuado quando vivem no campo. Dizem os especialistas em sono que a sesta pode ser benéfica, (os alentejanos que o digam), mas lembro-me de que em pequena detestava ser obrigada  a dormir depois do almoço, de apanhar os meus pais a dormir e de fugir para as minhas brincadeiras de gato diurno.
Descobri há pouco tempo que isso de recusar as sestas, no meu caso, não era necessariamente mau, porque «a sesta é boa para uns e deve ser evitada por outros. O sono é como um copo de água: pode beber-se de uma vez ou às pinguinhas, mas o total é sempre o mesmo.», como escreve Teresa Paiva, a nossa maior especialista  em Medicina do Sono. Ou deverá ser como um copo de água por dia, bebido à mercê da sede, acrescento, pensando no meu.

O guião para gatos, de Stanley Kubrick.



   Stanley Kubrick, que adorava gatos, deixou um
"guião" de quinze páginas explicando como deve-
riam cuidar dos animais na sua ausência, durante
as filmagens de Barry Lyndon, na Irlanda. A 37ª
alínea explica detalhadamente como separar dois
gatos, Freddy e Leo, pai e filho,(caso se envol-
vessem numa luta),  usando toalhas, água, e gritos,
para distrair um deles e deixar escapar o outro,
mas nunca tocando no mais agressivo.

Celebridades

A vida produz obras-primas exacta-
mente como a poesia, a escultura
ou a pintura.
Oscar Wilde

Segunda-feira, 18 de Agosto

Nunca viajo sem o meu diário.  A gente precisa
sempre de ter algo de sensacional para ler no
comboio.
Oscar Wilde                           

17.8.14

à porta fechada

Sigo
o meu caminho
que é torto

Um corvo
me acompanha
e um porco

Passo
pela árvore
e pela forca

Passo
pela igreja
ao abandono

Não abandono
a igreja
ao abandono

Adília Lopes/(n.1960)
Verbo.Deus como interrogação
na poesia portuguesa

15.8.14

Fronteira

(...)  No decorrer dos últimos duzentos anos, o melro abandonou as florestas para se transformar num pássaro citadino. Primeiro na Grã-Bretanha, desde o final do século XVIII, umas dezenas de anos mais tarde em Paris e no Ruhr. Ao longo do século XIX, conquistou, uma após outra, as cidades da Europa. Instalou-se em Viena e em Praga por volta de 1900, depois progrediu para leste, chegou a Budapeste, Belgrado, Istambul.
(...)que o melro tenha traído a sua natureza original  para seguir o homem no seu universo artificial e contranatura é um facto que já altera alguma coisa quanto à organização do planeta.
(...)
Milan Kundera/ O Livro do Riso e do esquecimento

14.8.14

Paraíso

 Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
                                          
David Mourão-Ferreira/ Obra Poética


Various Positions/ Ana Canto






Adão e Eva

Ana Canto

Sim, em Setembro.

Aqui há tempos disseste, vou-me casar em Setembro, e lembrei-me da noite do teu baptismo, sim não me enganei, porque foste baptizado à noite, a seguir à benção do fogo, numa cerimónia que quase parecia pagã, mas não era. Secretamente desejei que te casasses na mesma igreja, tão simples e despojada como eram as nossas vidas, e que continuasses sempre a ser tão amado como foste, agora noutros braços, em frente ao mesmo altar.

13.8.14

Casas comigo em Agosto?

Não. E em Setembro? Não.
(...)
Mas o melhor é fugir para um lugar só nosso. Longe de tudo e de todos, fechados numa concha ou num vulcão em que ninguém nos possa descobrir.
(...)
Sofia, casa comigo em Agosto. Se não for o deste ano, um de um ano qualquer. Não gosto de viver sozinho. Faltam-me passos a percorrerem os corredores da casa.

Os corações também se gastam./ Pedro Paixão
Casa comigo em Agosto 

We just wanted to say Hello

Música para Gesto e gesto para a música



Não há príncipio nem fim, às vezes perco a pintura.
Jackson Pollock

12.8.14

Dripping





Não sabíamos nada sobre ele.


According to the Oxford English
Dictionary, the word snapshot is
originally a haunting term.

One Hour Photo, com Robin Williams

Ontem no jardim de Agosto

Os dias vão gradualmente diminuindo, e as flores também. As anuais tiveram o seu auge com o calor, (quando a extensão dos poentes até à última sombra projectada na terra se fez quente e tarde), e agora começam progressivamente a dar flores mais pequenas, e a secar. O vento arrasta as primeiras folhas desistentes , e acumula-as aos cantos, longe das árvores. Passaram facilmente seis horas de trabalho no jardim, que terminaram com a rega do fim do dia e a água ainda morna a escorrer do regador, enquanto as pegas azuis escuras disputavam o melhor galho para dormir, e o faziam num som único, antes dos grilos. Foi então que reparei numa toranja poisada sobre os montes, que subiu e se foi acendendo como um candeeiro, e um luar frio e aquático invadiu progressivamente tudo. As estrelas morreram ou caíram como as folhas, assombradas por essa fantástica luz da noite. Ontem no jardim de Agosto com cheiro a verbena e alfazema, tivemos uma noite branca do outro lado do sol.