Atalhos de Campo


23.7.14

Miúda Gira

Conheci-te numa insónia, aliás conhecemos-te, porque é relativamente vulgar ter insónias, eu pelo menos lido com elas desde os dezoito anos. Portanto nós conhecemos-te. Não sei o que aconteceu com as outras, se nunca mais se lembraram de ti, mas eu seguramente nunca mais me consegui esquecer. Ao princípio estive quase para mudar de canal, mas parecias-te tanto com uma amiga minha, isto é, a tua fotografia de antes, que fiquei ainda com menos sono a ouvir-te. Era como se tivesses sido tu a entrar no restaurante onde de vez em quando almoçávamos, vi-te a atravessar a rua, de saia vermelha, justa, saltos altos, camisa de seda natural, tão elegante, que eras um quase acidente. Sentaste-te à minha frente com um sorriso de radiante felicidade e ainda antes de pedirmos fosse o que fosse, já me estavas a contar as novidades. Havia um novo ele, verdadeiramente novo porque era de facto mais novo do que tu, uma lufada de ar fresco na tua vida, um homem alto, inteligente e simpático, disseste-me enquanto me mostravas a fotografia, e eu confirmava. Iam sair naquela noite, assistir a uma passagem de modelos e depois jantar, e a seguir quem sabe o que pode acontecer, a minha mãe já me disse para me portar bem, mas eu quero é portar-me mal, há imenso tempo que não conheço ninguém tão interessado em mim, vai esperar-me todos os dias ao escritório, telefona-me vezes sem conta, manda-me ramos de flores lindas, todas as manhãs acordo com uma mensagem maravilhosa, isto já lá vão quase três meses, há três meses que me sinto no céu, apaixonadíssima. Lembras-te daqueles postais da Happy, quando nos estivemos a tentar encaixar num tipo de miúda e nenhuma delas nos serviu porque havia sempre alguma coisa que não batia certo, olha hoje escolhia a frase mais provocatória de cada um e fazia um postal novo, todo branco, saído da casca, que é do que eu preciso - dizia-me, radiante. Devagar destapaste a cara, afastaste o lenço branco que te cobria o rosto. O lado direito da cara tinha desaparecido, o sorriso tinha sido arrancado, e estavas cega. Não havia emoção especial na tua voz, mas eras uma bandeira branca a visitar o mundo, e dizias-nos para não confundirmos perseguição com interesse, ameaça com ciúme, posse com amor, que  não sentíssemos culpa pela primeira bofetada, que logo outras se seguiriam sem nenhuma razão, que detectássemos rapidamente estes sintomas, que não deixássemos entrar ninguém assim nas nossas vidas. Aquilo que o encantara foi motivo para as primeiras discussões, começou por declarar guerra às saias justas, depois ao vermelho, por fim  aos saltos altos; em vez de frases românticas, apareciam palavras obscenas a cobrir o ecrã do telemóvel e depois das perseguições vieram as ameaças de morte. Um dia telefonou-te e disse-te, tens aí um homem em casa, tu respondeste-lhe que era a tua mãe, ele disse-te que mentias, que ia entrar e te ia matar. Quando conseguiu entrar, alvejou primeiro a tua mãe, que morreu, e depois, depois deu-te esse tiro na cara. Há muitos anos que não sei de ti, embora te tenha procurado, não sei se continuas a tua cruzada ou se desististe, mas a minha amiga salvou-se, nós salvámo-nos, por causa dessa tua bandeira branca, na minha noite em branco.

Nota: Este texto foi baseado num caso verídico apresentado por Oprah Winfrey, num programa a que assisti numa noite de insónia.