Atalhos de Campo


19.7.14

A caixa da tampa azul

Como perceberão, já de seguida, não foi só era uma vez uma caixa de tampa azul; foram pelo menos duas vezes. De plástico, muito pequena e baixa, insignificante até não fosse o facto de a tampa ser de uma cor diferente de todas as outras (de um azul deveras celestial e enganador) e de ter passado a ser a caixa mais pequenina da cozinha. Foi o retirar do prato com que partilhava o fundo da prateleira que esbarrou com ela e fez Carlota recordar-se imediatamente que tinha prometido devolvê-la, ou de outro modo nem repararia. A pobre, acabara esquecida sobre a bancada da cozinha, como acontece muitas vezes às caixas, mesmo às grandes, não obstante esta ter sido a eleita para levar umas azeitoninhas deliciosamente temperadas. Jantares daqueles eram também cada vez mais raros. Tinham o hábito de juntar umas coisas como se juntam trapinhos: coziam massa de formas e cores maravilhosamente perfumadas com folha de louro, juntavam-lhe queijo e legumes salteados, abriam um bom vinho tinto que deixava a conversa solta de notas frutadas, enquanto as velas iam gastando o tempo e a música fluía de boa vontade, sempre discreta a acompanhar, até que à hora do café se carregava de nostalgia. Às vezes optavam por partilhar um filme, que era tão entrecortado de comentários e interrupções que resultaria em expulsão dos dois de qualquer cinema.


Acabar a noite nos braços dele era coisa que há muito não lhe passava pela cabeça. No entanto, não dispensava a sua companhia e o dom que ele tinha  de contar as histórias mais banais com imensa graça, os sonhos que eram divertidos ou rocambolescos, os novos projectos que quase nunca realizava por perderem logo a validade, a sua curiosidade insaciável de velho adolescente, ou o humor picante de jovem velho, sempre pronto a aprender com os mais novos e a preocupar-se com eles, como um avô de grandes braços que a todos envolvia como sua família. Carlota sorria com a caixa vazia nas mãos, distraída com estes pensamentos, e ia justamente guardá-la mais à vista, quando a amiga que fora lá jantar nessa noite, exclamou: A minha caixinha das azeitonas gourmet afinal está aqui! Há imenso tempo que a procuro... Não é tua, e até prometi devolvê-la com uma surpresa, esclareceu Carlota. Mas Cristina resolveu provar-lhe que era dela, mostrando-lhe um canto queimado, que mal se notava. E foi assim que Carlota ficou a ter a certeza do que sempre suspeitara.