Atalhos de Campo


31.7.14

E terei os lírios que são as tuas rosas

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
(...)

És tão nova- tão jovem, 
como diria o Ricardo Reis-
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio
como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente
quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!
17/6/1929

Álvaro de Campos/ Poesia

Os lírios do mar


Se tivesse de filmar o texto, gostaria que o choro sobre o mar fosse montado de forma a que se visse o tumulto da brancura do mar e o rosto do homem quase ao mesmo tempo. Que houvesse uma relação entre a brancura dos lençóis e a do mar. Que os lençóis fossem já uma imagem do mar. Isto como indicação genérica.

Marguerite Duras/ A Doença da Morte

Os lírios do vale

Brancos

(...)não é a verdade que é verdadeira, é a
relação com o engano que se torna verdadeira.
Para estar na verdade, basta-me persistir: um
«engano» afirmado infinitamente, perante e con-
tra tudo, transforma-se numa verdade.

Roland Barthes/ Fragmentos de um discurso amoroso

  

Amores brancos

-Se não quiser, não conte - disse a Luisa.- Se não quiser,
 não conte - repetiu a Luisa, e agora deu-me a impressão
 de que quase lhe implorava que não lhe contasse.

Javier Marías/ Coração tão branco

30.7.14

Talvez nunca














But I could have told you, Vicent,
This world was never meant for one
As beautiful as you.
Don McLean

Vincent



« Tenho pena e não respondo. »









(...)

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?
26-8-1930

Fernando Pessoa/ Novas Poesias Inéditas

Ninguém

Negro centro















(...)
Girassol do falso agrado
Em torno do centro mudo
Fala, amarelo, pasmado
Do negro centro que é tudo.
18-4-1931

Fernando Pessoa/ Novas Poesias Inéditas

29.7.14

Crazy



Ou se minto.







(...)

Pelos campos sem fim
Sinto correr, porque na face o sinto,
Um vago vento, estranho todo a mim.
Não sei se penso, ou em que dor consinto
Que seja minha ou desespero sem ter fim,
Ou se minto.
16-2-1920

Fernando Pessoa/ Novas Poesias Inéditas

O amor é uma companhia.

O amor é uma companhia.
(...)

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol
                                    com a cara dela no meio.
Alberto Caeiro/ Poesia

Photoshop


Photomaton

 



Catedral

28.7.14

Com apreço








Impossível não referir o profissionalismo e a dádiva de todas estas pessoas que se dedicam a melhorar a existência dos animais de produção tratando-os com dignidade; pessoas que se levantam de madrugada e acabam os seus trabalhos no campo quando já é  de noite; que à torreira do sol, ao frio, à chuva, na lama, e  por vezes nas condições mais adversas, cumprem estas tarefas que resultam em bem-estar para os homens. Mas só eles certamente podem sentir que, apesar das dificuldades, o regresso a casa sob a paz de um céu enorme foi coisa que não estava ali, mas que é agarrada todos os dias, com as mãos. Uma vitória merecida.

Pernas pra que te quero

Assunto resolvido


Sangue, suor e saúde

Fazer uma colheita de sangue a todo o rebanho, ou uma amostragem a 25% de animais,(num mínimo de 50 amostras de sangue) se o rebanho for indemne de brucelose, é obrigatório e um problema de saúde pública. A brucelose é uma doença infecto-contagiosa e uma zoonose( transmite-se ao homem ), originando a Febre de Malta, uma doença que pode ser para a vida, e uma doença profissional, já que é altamente contagiosa e facilmente contraível para quem lida com o rebanho. Portugal tem a doença controlada mas ainda existem casos esporádicos, cada vez menos frequentes; uma positividade única num rebanho significa um rebanho vigiado obrigatoriamente várias vezes no ano, o que para além de transtorno para o produtor se torna  num retrocesso em todo o caminho da erradicação . Aqui o rebanho é pequeno e foi colhida uma amostra a todos os animais que é obrigatória também para todos os machos reprodutores, qualquer que seja o seu número.

  


Manga outra vez?, prefiro figos.

Com pinta

                Desde outros tempos que se marcam as ovelhas; mesmo os pastores que conheciam os seus animais como a palma das mãos, os numeravam escrevendo sobre a lã, sobretudo quando os rebanhos eram grandes. Agora isso já não faz sentido, porque é obrigatória a "marca auricular", um brinco que é fixado na orelha esquerda, que já tem um número, não propriamente o número que corresponde ao número no rebanho, mas a um número nacional, como no nosso bilhete de identidade; todos os criadores têm a sua escrita e sabem quantas vezes o número tal pariu, ou que idade tem, ou se teve alguma doença digna de registo, por exemplo uma mamite. No entanto, fazer uma pequena marca sobre a lã, continua a ajudar na identificação de particularidades ou a saber a quantas se anda...

A preto e branco

26.7.14

De uma estação para a outra

Nunca vivemos juntos a mesma estação. Quando nasceste eu já tinha ultapassado a Primavera, e um dia, devias ter três anos, cheguei a casa da tua bisavó para te buscar, e encontrei uma parede toda pintada com caneta de feltro. Lembro-me de me apetecer dar-te uma palmada e limpar tudo, mas depois achei melhor ir buscar uma bacia com água e detergente e ensinar-te a limpar. Assim aconteceu, e nunca mais te apeteceu repetir a pintura; talvez ao longo do meu Verão e agora do teu, tanto um como outro tenhamos ensinado desta maneira, porque acabamos por ensinar da mesma forma que aprendemos, mas o grande desafio, só agora sei, é a capacidade que o Outono tem de perceber finalmente os erros que errou ou não nas outras estações, pela maneira como as viveu.


Então o Inverno poderá serenamente concluir, quando nos soubermos sozinhos, que a próxima Primavera já não será nossa, mas que algo de nós permanecerá, de bom ou não. 

O desafio e o prazer

Para dizer o que tenho a dizer nos termos mais simples possíveis, escrever romances representa para mim um desafio, escrever contos, um prazer. Se o acto de escrever um romance é como plantar uma floresta, escrever contos assemelha-se a plantar um jardim. Os dois processos completam-se, criando uma paisagem envolvente que me é muito querida. A folhagem verde das árvores projecta sobre a terra uma agradável e deleitosa sombra, e o vento faz estremecer as folhas, que por vezes reflectem um brilho dourado. Num jardim, nascem flores em botão e as suas pétalas coloridas atraem as abelhas e as borboletas, fazendo-nos recordar a subtil transição de uma estação para a outra.

Murakami/ A rapariga que inventou um sonho
[Introdução à  edição inglesa]

Arte milenar

Entre o céu e a água

As borboletas de Churchill



Antes da guerra, Churchill voltou à sua paixão de
infância, criar borboletas, mas só depois de 1945
conseguiu prosseguir com o seu intento de repovoar
o estado de Kent, (onde a bela casa de tijolo verme-
lho se implantara, entre jardins, lavandas e lagos),
com espécies já desaparecidas, e outras exóticas.
Churchill tinha o hábito de dar garden parties en-
cantando os seus convidados com as centenas de bor-
boletas que comprava para esse fim a um conhecido
dealer, que o convenceu a converter a casa de verão
de Chartwell que era pouco usada, em santuário para 
criar borboletas, e o jardim num jardim de borbole-
tas. Quando morreu em 1965, Churchill deixou esta
paixão como um legado em Chartwell, e um exemplo
para o mundo.

25.7.14

O jardim das delícias

Fotografia de Eduardo Dunões

A tapada dos rouxinóis

Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,
Seront deux rossignols qui chantent dans le soir.

Verlaine

Os perfis de Wittgenstein

Devido à sua ambiguidade, o rosto de Chloe podia ser comparado ao pato-coelho de Wittgenstein, que parece conter na mesma imagem um pato e um coelho. Tudo depende da atitude do espectador: se a imaginação anseia por um pato, encontrálo-á, se procura um coelho, é um coelho que ela vai ver. O que conta é a predisposição do observador. Claro que era o amor o responsável pela minha predisposição generosa.

Alain de Botton/ Ensaios de Amor


Imagem fotografada do livro


24.7.14

O perfil do céu

Louise Bourgeois conta uma história a Herberto Helder

Carpe diem

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto-
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis/ Odes

e gira.




















(...)
Girassóis sempre
Fitando o Sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

Ricardo Reis/
Odes

Acorda, vá...

23.7.14

Miúda Gira

Conheci-te numa insónia, aliás conhecemos-te, porque é relativamente vulgar ter insónias, eu pelo menos lido com elas desde os dezoito anos. Portanto nós conhecemos-te. Não sei o que aconteceu com as outras, se nunca mais se lembraram de ti, mas eu seguramente nunca mais me consegui esquecer. Ao princípio estive quase para mudar de canal, mas parecias-te tanto com uma amiga minha, isto é, a tua fotografia de antes, que fiquei ainda com menos sono a ouvir-te. Era como se tivesses sido tu a entrar no restaurante onde de vez em quando almoçávamos, vi-te a atravessar a rua, de saia vermelha, justa, saltos altos, camisa de seda natural, tão elegante, que eras um quase acidente. Sentaste-te à minha frente com um sorriso de radiante felicidade e ainda antes de pedirmos fosse o que fosse, já me estavas a contar as novidades. Havia um novo ele, verdadeiramente novo porque era de facto mais novo do que tu, uma lufada de ar fresco na tua vida, um homem alto, inteligente e simpático, disseste-me enquanto me mostravas a fotografia, e eu confirmava. Iam sair naquela noite, assistir a uma passagem de modelos e depois jantar, e a seguir quem sabe o que pode acontecer, a minha mãe já me disse para me portar bem, mas eu quero é portar-me mal, há imenso tempo que não conheço ninguém tão interessado em mim, vai esperar-me todos os dias ao escritório, telefona-me vezes sem conta, manda-me ramos de flores lindas, todas as manhãs acordo com uma mensagem maravilhosa, isto já lá vão quase três meses, há três meses que me sinto no céu, apaixonadíssima. Lembras-te daqueles postais da Happy, quando nos estivemos a tentar encaixar num tipo de miúda e nenhuma delas nos serviu porque havia sempre alguma coisa que não batia certo, olha hoje escolhia a frase mais provocatória de cada um e fazia um postal novo, todo branco, saído da casca, que é do que eu preciso - dizia-me, radiante. Devagar destapaste a cara, afastaste o lenço branco que te cobria o rosto. O lado direito da cara tinha desaparecido, o sorriso tinha sido arrancado, e estavas cega. Não havia emoção especial na tua voz, mas eras uma bandeira branca a visitar o mundo, e dizias-nos para não confundirmos perseguição com interesse, ameaça com ciúme, posse com amor, que  não sentíssemos culpa pela primeira bofetada, que logo outras se seguiriam sem nenhuma razão, que detectássemos rapidamente estes sintomas, que não deixássemos entrar ninguém assim nas nossas vidas. Aquilo que o encantara foi motivo para as primeiras discussões, começou por declarar guerra às saias justas, depois ao vermelho, por fim  aos saltos altos; em vez de frases românticas, apareciam palavras obscenas a cobrir o ecrã do telemóvel e depois das perseguições vieram as ameaças de morte. Um dia telefonou-te e disse-te, tens aí um homem em casa, tu respondeste-lhe que era a tua mãe, ele disse-te que mentias, que ia entrar e te ia matar. Quando conseguiu entrar, alvejou primeiro a tua mãe, que morreu, e depois, depois deu-te esse tiro na cara. Há muitos anos que não sei de ti, embora te tenha procurado, não sei se continuas a tua cruzada ou se desististe, mas a minha amiga salvou-se, nós salvámo-nos, por causa dessa tua bandeira branca, na minha noite em branco.

Nota: Este texto foi baseado num caso verídico apresentado por Oprah Winfrey, num programa a que assisti numa noite de insónia.

Transparências


Rui Chafes






22.7.14

Uma em cada quatro

(...)
Num estudo de que foram objecto estudantes universitários americanos, 34% das mulheres disseram que tinham sido seguidas ou molestadas por um homem que tinham rejeitado. E uma em cada doze mulheres americanas hão-de ser perseguidas por um homem em qualquer altura da vida, normalmente por um ex-cônjuge ou amante. Com efeito, o Ministério da Justiça informa que todos os anos mais de um milhão de mulheres americanas são perseguidas(a maioria com idades entre os dezoito e os trinta e cinco);59% delas são perseguidas por namorados, maridos, ex-cônjuges ou companheiros. Uma em cada quatro mulheres são também agredidas, esbofeteadas, empurradas, ou atacadas fisicamente de outra maneira qualquer pelos seus perseguidores.
 (...)
Os homens também matam. Cerca de 32% de todas as mulheres vítimas de assassínio nos Estados Unidos morrem às mãos de cônjuges, ex-cônjuges, namorados e ex-namorados, mas os peritos pensam que os números reais são muito mais elevados- de 50 a 70%. Mais de 50% desses assassinos começam por perseguir as suas parceiras.
(...)
Helen Fischer/ Porque Amamos  

Entre agressões

Entre ameaças



Entre grades


Entre espinhos


Escurecer
















Quando a noite chega o 
maravilhoso não escurece.
Gonçalo M. Tavares/Poesia 1

21.7.14

Um minuto de silêncio


(...)
Mas  o que sei, é que muitos daqueles
que foram conduzidos para esta vida,
estão desesperadamente à procura desses
nichos de silêncio onde conseguimos en-
raizar e crescer.
Devemos todos ter esperança em encon-
trá-los .

Mark Rothko

A horta de Rothko


Textos Secretos

   
E  depois o dia voltou como habitualmente, com lágrimas e pronto para o teatro. E mais uma vez o teatro aconteceu.
E em vez de morrer fui para aquele terraço no parque e sem emoção disse em voz alta a data do dia que era, segunda-feira quinze de Junho de 1981, que tu tinhas partido no calor terrível para sempre e que eu acreditava, sim, desta vez, que era para sempre.

Marguerite Duras/ O Homem Atlântico

20.7.14

De mãos vazias







Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade
Poema para o meu amor doente

Emma Bovary





Morreu como qualquer gladíolo morreria no século XIX.
Alheio à sua inclinação perigosa, seguiu o caminho do
fascínio, uma longa e sinuosa estrada sem sinais de
trânsito ou de perigo, um caminho de automatismo regu-
lado apenas pelo bater do coração.