Atalhos de Campo


18.6.14

Uns olhos com o mar de Luanda

   Abria os olhos ao Domingo de manhã, e as manhãs começavam. É diferente acordar na savana ou num lugar qualquer, e nós acordámos sempre na savana. Acordámos sempre em África.
   Ao pequeno-almoço a minha mãe era Gene Tierney; Gene abria os olhos, da imensidade que nunca nos transmitiu, e essa imensidade era um continente. O seu poder ainda hoje incontestado, avançava ao longo do dia e prolonga-se ao longo dos anos. Não sabíamos que esses olhos poderosos podiam gerir pequenos-almoços e vidas. Como um felino ensinou-nos a avaliar a média distância, a controlar de perto, a sonhar com o longe.
   Não me parece que tenha ronronado só pelas suas crias. Tinha, tal como nos ensinou, sonhado com um outro sol, sem assinatura. Para trás ficou a jornalista que gostaria de ter sido, mas a paixão pela informação e pela rádio mantém-a interessada todos os dias. Ao meu pai dedicou todo o seu tempo. Foi a enfermeira, a amiga inseparável e a gestora atenta da sua longa doença.
   Em 1984 era tal e qual a Elizabeth Mcgovern, antes de tirar as máscaras.
   Hoje é a minha mãe, guerreira e inteligente, bela nos seus quase oitenta anos, os mesmos olhos sem outro mar.

    Nota:Gene Tierney foi Laura Hunt, no filme Laura de Otto Preminger(1944). Frank Sinatra, Carly Simon, Duke Ellington, Ella Fitzgerald e outros, eternizaram o tema do filme, mas é Dedorah's Theme, de Morricone, em Once Upon a Time in America(1984), que me fará sempre lembrar a minha mãe.

Obrigada Filipe, pela fotografia que me enviaste da mãe.