Atalhos de Campo


7.6.14

O fim de uma amizade

  Amizade nas estrelas. Éramos amigos e tornámo-nos estranhos. Mas está bem assim e não no-lo queremos encobrir nem obscurecer, como se tivéssemos de nos envergonhar disso. Somos dois navios, cada um com o seu objectivo e o seu rumo; podemos certamente cruzar-nos e fazer uma festa, como algumas vezes o fizemos e, então, ficaram os bons navios tão quietos no mesmo porto e ao mesmo sol, que até parecia que tinham alcançado o fim e que teriam tido um objectivo. Mas depois a força toda-poderosa da nossa tarefa tornou-nos a separar e empurrou-nos para diferentes mares e paragens sob diferentes sóis e talvez não nos tornemos mais a ver, talvez até nos vejamos, mas não nos tornemos a reconhecer: os diferentes mares e sóis mudaram-nos! É a lei sobre nós: temos de nos tornar estranhos, é mesmo por isso que nos tornaremos mais dignos de respeito! É mesmo por isso que o pensamento da nossa antiga amizade se tornará sagrado! Há provavelmente uma imensa curva, como que um caminho de estrelas invisível, no qual as nossas tão diferentes estradas e objectivos se devem encontrar incluídos como pequenos lanços - levantemo-nos até esse pensamento! Mas a nossa vida é muito curta e a nossa visão muito diminuta, para que pudéssemos ser algo mais do que amigos, no sentido daquela sublime possibilidade.
  E assim vamos acreditar na nossa amizade nas estrelas, mesmo se tivermos de ser inimigos uns dos outros na Terra.

Nietzsche/A Gaia Ciência   
Nota: a propósito da amizade com Wagner