Atalhos de Campo


6.6.14

É importante não perder o azul

   Entrei no The Decadente com uma missão impossível, a de arranjar mesa às oito da noite, de uma quinta-feira. Ia apressada, o carro em segunda fila, falei com alguém do bar, reparei que estavam ali pessoas a tomar uma bebida, e depois ouvi o meu nome.
    Eu ainda trazia aquele azul comigo, o azul que veste Lisboa em  Maio e Junho, quando me virei  e te vi. Por isso achei normal que tivesses  o mesmo azul no pullover, um azul que estava ali para não deixar morrer a tarde.
    Reparei que estavas magro, como se tivesses perdido um corpo, como se fosses só uma metade, o teu sorriso era ainda bonito, mas não era já um miradouro magnífico sobre a alma limpa, estavas ali, mas tinhas partido na tua vespa por uma qualquer rua sinuosa e desaparecido numa curva sob o rio.
    Separei-me, disseste, faz hoje quinze dias.
    Conversámos alguns minutos, e despedi-me.
    Quando entrei no carro, a tarde tinha quase morrido:
    -Aqui não temos mesa, mas vamos jantar a um sítio bonito, com janelas abertas para os jacarandás, disse.
    É importante não perder o azul.
    Eu sei que tu acreditas.