Atalhos de Campo


13.6.14

Ao cão que morreu num dia de sol

   O andar rígido e inseguro tornara-o cada vez mais vagaroso e era quase impossível levá-lo à rua nos últimos dias, ainda por cima porque chovera todo o tempo e ele escorregava e caía. Eram as mazelas dos catorze anos, a incontinência, e um alheamento crescente que as cataratas e a quase total surdez potenciavam. Só o coração lutava ainda contra aquele estado progressivo, desordenado na sua trincheira, batendo num apego à vida.
    Passou assim um ano inteiro, um ano de difícil convivência, ver definhar não é fácil, a apatia a crescer, até ao desinteresse total, até virar o focinho à comida. Nesses dias perceberam que tinha chegado o momento.
    Animou-se talvez porque estava sol e entrou na clínica pela trela como era hábito mas quando o deitaram na marquesa baixou a cabeça, fatigado. Sabia que o levavam ali para depois se sentir melhor e já levara tantas injecções nos últimos tempos que se deixou ficar indiferente, mas desta vez faziam-lhe tantas festas durante o exame que até estava a gostar.
    Tinha chegado o momento. O veterinário abanou a cabeça depois da auscultação em sinal de que nada mais havia a fazer, e pediu permissão para continuar. Nessa altura o dono abandonou a sala sem coragem para assistir: o seu companheiro de passeios pela quinta, o amigo que lhe lambera as mãos e as feridas da alma desapareceria assim da sua vida, para sempre.
     Gap sentiu aquela injecção diferente e o seu olhar de espanto cravou-se na dona. Foi nessa altura que percebeu que já tinha pouco tempo e começou a correr. Espantou-se com a sua força; à medida que ganhava velocidade os seus músculos rejuvenesciam recuperando elasticidade, enquanto saltava muros e barreiras para encurtar distâncias.
      Quando lá chegou era jovem e imponente. O pêlo recuperara o brilho de outrora, e faiscava agora ondulando ao sol do fim da manhã. Empurrou com o focinho húmido e brilhante o pesado portão verde escuro que dava acesso ao pátio interior da casa antiga forrada a azulejo onde vivera em cachorro, e subiu as escadas a correr. Se conseguisse ser rápido talvez ainda tivesse tempo.
     A porta de entrada estava entreaberta; ficou parado à escuta e inclinou ligeiramente a cabeça quando  reconheceu a música que vinha do interior. Aí teve a certeza de que a ia encontrar. Entrou adaptando as pupilas à diferença de luz e percorreu depressa toda a casa. Foi à cozinha à procura de água, meteu a cabeça pelo varandim do pequeno terraço à procura dos gatos, e quando os encontrou espalhados pelos telhados a dormir ao sol suspirou aliviado. Voltou a entrar em casa. Das portadas da sala uma luz vertical incidia sobre a secretária. Quando a viu abanou a cauda, feliz. Ali estava ela, parecia ter estado a trabalhar ao computador, mas agora pousara o telemóvel e chorava, parecendo não reparar nele.   
      Gap, esquecendo-se das boas maneiras saltou-lhe ao pescoço e lambeu-lhe a cara, antes de adormeçer.


      Dizem que continua tudo como antes: em frente à janela recortado pela linha dos telhados e das palmeiras, o majestoso Tejo continua a deixar-se navegar por navios e cacilheiros. Tal como antes a sirene dos barcos continua a barrar o ar pachorrento, enquanto em certos dias algumas velas brancas aparecem pintadas sobre o azul da água, emolduradas pela paz das manhãs sem vento.