Atalhos de Campo


3.6.14

A Horta e a Flor

   Chegaram numa manhã de outono, numa dessas manhãs de sol em que já apetece vestir um casaco confortável, calçar umas botas e passear pelo campo. A luz que sucede o verão é diferente, menos crua e mais  rasteira, a terra vai estendendo os seus tapetes de  trevo e azevém, amaciada pelo orvalho das madrugadas, esquecendo-se da secura , recuperando da desidratação, rejuvenescendo.
   Foi esta terra que as recebeu, surpresa pela construção de um abrigo em madeira, cedendo à implatação de mais estacas para reforçar as cercas, estremecendo a cada estocada, bebendo o suor dos homens, ouvindo-lhes as conversas descaradas enquanto a marterizavam, esticavam arames, colocavam preguetas, e cantarolavam, obrigando o frio a evapor-se até ao sol do meio-dia. Depois veio um bebedouro enorme, colocado dedaixo de um choupo, e um comedouro, e a casa que era terra, abrigo, e pasto, estava pronta.
   Quando saíram da camioneta, daquelas que nos atrasam a viagem  nas estradas secundarias, porque transportam animais atados por cordas a um qualquer destino, vinham desconfiadas, pareciam mais pequenas e assustadas. Eram as únicas sobreviventes de um lote de bezerros de engorda, cruzados de raça alentejana e limousine, e estavam com oito meses de idade. Tinham sido ambas amamentadas a biberão, uma, porque a mãe não tinha leite, a outra, porque a mãe morrera após o parto. O vaqueiro pedira, tinha-lhes amizade, se as quer, eu falo ao Sr. engenheiro, que lhas vende, talvez se arranje um bom preço, veja lá Sr. doutor, se as salva, os outros vão já daqui a quinze dias... 
    Chegaram faz hoje exactamente seis meses, comem à mão, gostam de festas e moram na porta ao lado. 
    A Horta e a Flor; se as chamarem, elas vêm.