Atalhos de Campo


4.6.14

A flauta de bisel

   Às vezes ponho-me a pensar como era possível vires da Meia Praia até ao Alvor a pé, o certo é que te via ainda ao longe com esse andar um pouco desengonçado a caminhar sobre a areia quente, de saco de lona cor de caqui a tiracolo, e a primeira coisa que fazias quando acabavas de me abraçar, era largar tudo e dar um mergulho.
   Nadavas bem. Vinhas de outras praias e de outro mar e isso dava às tuas braçadas um vigor desnecessário ali, na quente serenidade daquelas ondas. Eu ficava a ver-te, a admirar-te o crawl até saíres da água e te deitares na toalha, morto de cansaço e de prazer.
   Guardo de ti inúmeras recordações, os livros que líamos(ainda leio Eugénio de Andrade e Daniel Filipe), a fotografia em que estás  correr entre os tanques no 25 de Abril, que eu recortei de um jornal, as cartas que me escreveste ao longo dos anos, o símbolo com que marcávamos todos os livros, (que ainda encontro na minha biblioteca), as tuas aguarelas e desenhos, que continuam nas novas paredes. Mas lembro-me sobretudo de quando tocavas flauta; tocavas Jethro Tull com a virtuosidade do Ian Anderson.
    Imagina que ontem te procurei no Facebook e  vi a tua fotografia mas não fiz nada, o Facebook não faz o meu género; resolvi então escrever-te uma carta, como fazíamos dantes.
    É que até hoje guardo comigo a tua Hohner de madeira, com as marcas dos teus dedos, de onde conseguias tirar sons impossíveis, e tenho pensado ultimamente se não gostarias de ficar com a sua beleza.