Atalhos de Campo


24.6.14

A festa e a tragédia


  Estive neste jogo. Foi no dia 18 de Maio de 1996, num belo dia de Primavera, no Estádio Nacional. Circunstâncias várias fizeram com que eu assistisse à final da Taça de Portugal, a um derby Benfica Sporting, um grande jogo.
  Sempre achei o futebol um espectáculo bonito, queria entrar num estádio e assistir a um jogo, sentir aquele ambiente pelo menos uma vez na vida.
  Em nossa casa o meu pai, um sportinguista sorumbático, vivia as suas derrotas e vitórias num quase silêncio, nunca lhe vi grandes manifestações a não ser um brilhozinho nos olhos ou uma exclamação de aborrecimento, enquanto o meu avô tratou de transformar todos os netos em benfiquistas, alguns ferrenhos como ele, vociferando, rindo, comemorando as vitórias ao som do hino do benfica, que todos sabíamos de cor.
  Lembro-me bem do tédio dos domingos, dos relatos por todo o lado, dos transistores encostados ao ouvido, da voz do locutor que conseguia transformar qualquer jogada num acontecimento imperdível, presa às pernas dos jogadores, às suas fintas, aos rodriguinhos, e se projectava na baliza num arco de golo, um arco de voz.
  Uma casa em que havia três homens era uma casa de futebol, juntava-se tudo na sala da televisão para ver os jogos, e até a minha mãe se aliava a nós, em exclamações e silêncios ansiosos nos momentos de maior tensão. Eu talvez fosse a menos assídua, não que não vibrasse com algumas jogadas, mas aquele suspense era demasiado angustiante, ver Portugal perder era uma tristeza, e então afastava-me e procurava outra ocupação, num acto de cobardia. 
  Com o tempo fui-me desinteressando, e mais tarde se ia ao cinema nos dias de grandes jogos, encontrava um rasto de papelinhos pendurados ou assentes sobre os móveis, feito pelo meu filho, com o resumo das jogadas e o resultado de um final, sobre o qual adormecera feliz ou infeliz, sonhando com o seu cachecol vermelho.
   A vontade de assistir a um jogo ao vivo cumpriu-se, manchada por uma tragédia logo a seguir ao primeiro golo. Um very-light atravessara todo o campo para atingir alguém . Eu estava do lado oposto, abriu-se uma clareira na bancada, morria um homem.