Atalhos de Campo


26.6.14

A Casa

    Esta é a casa. Digo isto porque não é minha, porque tem vontade própria, porque se reinventa a cada dia, se ilumina nos dias de sol, quando atrevida  olha para fora a provocar, com a sua nudez de montra destapada de janelas altas, e amua nos dias de chuva, porque tem um lado lunar e se deixa influenciar por ele, se deixa invadir por ele às escondidas enquanto durmo; onde é verão e inverno no mesmo dia, porque é norte e sul, como uma bússola que não se decide nunca.
    Ela é verdadeiramente a minha proprietária; gosta de flores da época, cheira a café de manhã, mal se espreguiça quer ouvir música clássica, quer o chuveiro a correr, quer o ar da cidade a trazer notícias, quer movimento mas não gosta de barulho, e quer-me sobretudo porta fora, para se derreter ao sol que aquece os quadros e as paredes e acentua as cores sobre todos os brancos; quer  observar sozinha as lombadas dos livros, alguns ainda intocados, e repetir-se em eco pelos espelhos, controlando os candeeiros adormecidos, os objectos, e os esconderijos.
    Ao fim da tarde prefere jazz, enquanto vai espiando o regresso às casas rivais dos transeuntes com pressa,  iluminada pelos faróis do anoitecer, pelas velas acesas, pelo fascínio dos ecrãs, e pela promessa de filme fora de horas e de ceia improvisada. Não se importa com o aroma das pastas e do manjericão, concentra-se no som da rolha a deslizar pelo gargalo da garrafa de vinho, segue o perfume dos pratos que passam em direcção à sala de jantar, e aconchega-se no seu calor apressado e altruísta.
    Uma noite abri a porta e fui entrando devagar. Contra as janelas, a chuva forte do último dia de Agosto brilhava e escorria em várias direcções guiada pelo vento, desenhando mapas sobre os vidros. Distraída, deixava-se percorrer por caminhos desconhecidos, que a luz dos candeeiros da rua projectava em sombras mágicas nas paredes. 
    Só o grande relógio marcava ainda o ritmo certo do coração, que temera que eu não voltasse mais.