Atalhos de Campo


29.6.14

A paixão e a fusão



Paixões

Ardes-me no peito onde a custo
o meu amor perpassa, e vai até
às loucuras do corpo
e às agruras da alma.
Ardes-me no minuto, no segundo,
na hora amaciada por olhos entrevistos,
ardes-me no sangue obstruído
e na certeza muda que me diz
que o coração existe.
 
Pedro Tamen 

Sem sombra


Igreja São João Baptista
Matriz de Moura








Terras ao sol


28.6.14

O Belo e o Bom

  









  










   Quem é belo
 é belo aos olhos
   - e basta.

  Mas quem é bom
é subitamente belo.

 Safo(Séc.VII  a.C.)

27.6.14

«Amo esta língua»

  Não é uma língua fácil. É um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve querendo roubar às coisas e pessoas a sua primeira camada superficial. É uma língua que por vezes reage contra um pensamento mais complexo. Por vezes o imprevisto de uma frase causa-lhe medo. Mas eu gosto de manejá-la - tal como outrora gostava de montar um cavalo para o levar pelas rédeas, umas vezes lentamente, outras a galope.

Clarice Lispector

800

(...)
A língua portuguesa, ferro de marcar as ideias, como um rebanho solto no campo, deve ser usada como milagre e como sabedoria. Do primeiro tem a iniciação e a sensibilidade; da segunda tem a forma e a aprendizagem.
(...)
A língua portuguesa é a escada com que se chega às longas viagens de uma identidade. Quer dizer: do coração colectivo da terra em que nascemos.

Agustina Bessa-Luís

Factos


            





 




(...)
B: Peguemos na pergunta, porque é que ele não pinta uma rosa? Uma rosa é também muito mortal, quando você vê uma rosa, essa bela rosa num dia ou dois está a morrer, a sua cabeça está a cair, está murcha.
   Haverá grande diferença entre uma rosa e o meu tema? (risos) É só uma diferença de objecto. 
Francis Bacon 

Os Jardins








(...) 
Quem não teve um jardim, público ou privado, na sua infância, será um doente das suas próprias memórias. Há-de tossir com o frio desgarrado que não foi filtrado por um plátano ou tília. Terá a cor do ar sombrio, e os olhos da solidão. O jardim é o princípio e o fim, o Éden e o Gethsémani. Os jardins às vezes morrem; mas deixam na terra alguma coisa de santo que as gerações aproveitam dizendo: «Aqui, não sei porquê, sinto-me bem aqui.»

Agustina Bessa-Luís
Caderno de Significados

Efémero

A harmonia que, para os clássicos, exprimia a relação
das partes com o todo, atravessou os milénios sem alterar
o equilíbrio do homem no centro da sua esfera. Esse
homem, com a sua representação simétrica, define-se
a partir de um universo que tem um limite
na compreensão divina da matéria
e do espírito. E poderia continuar assim, se
não ouvisse um copo a partir-se no fundo
da casa - alguém que se distraiu, e que rompeu,
de súbito, o meu raciocínio. Ao mesmo tempo,
porém, descobri que nada do que eu pensava
era original; e só ao apanhar do chão os vidros
partidos, um brilho breve no seu contacto com
a luz me fez pensar que, afinal, a harmonia
também nasce da destruição, e o centro da esfera
desloca-se para o fragmento que seguro com
os dedos, antes de o deitar para o lixo.

Uma reflexão sobre a beleza eterna,
interrompida pela visão do efémero.

Nuno Júdice/ Guia de Conceitos Básicos

26.6.14

Falemos de casas

(...)
Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
celestes que fulguram lentamente
até uma baía fria - que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.
Falemos de casas como quem fala da sua alma,
entre um incêndio,
junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
                                de beleza.
herberto helder/ Ofício Cantante
poesia completa

A Casa

    Esta é a casa. Digo isto porque não é minha, porque tem vontade própria, porque se reinventa a cada dia, se ilumina nos dias de sol, quando atrevida  olha para fora a provocar, com a sua nudez de montra destapada de janelas altas, e amua nos dias de chuva, porque tem um lado lunar e se deixa influenciar por ele, se deixa invadir por ele às escondidas enquanto durmo; onde é verão e inverno no mesmo dia, porque é norte e sul, como uma bússola que não se decide nunca.
    Ela é verdadeiramente a minha proprietária; gosta de flores da época, cheira a café de manhã, mal se espreguiça quer ouvir música clássica, quer o chuveiro a correr, quer o ar da cidade a trazer notícias, quer movimento mas não gosta de barulho, e quer-me sobretudo porta fora, para se derreter ao sol que aquece os quadros e as paredes e acentua as cores sobre todos os brancos; quer  observar sozinha as lombadas dos livros, alguns ainda intocados, e repetir-se em eco pelos espelhos, controlando os candeeiros adormecidos, os objectos, e os esconderijos.
    Ao fim da tarde prefere jazz, enquanto vai espiando o regresso às casas rivais dos transeuntes com pressa,  iluminada pelos faróis do anoitecer, pelas velas acesas, pelo fascínio dos ecrãs, e pela promessa de filme fora de horas e de ceia improvisada. Não se importa com o aroma das pastas e do manjericão, concentra-se no som da rolha a deslizar pelo gargalo da garrafa de vinho, segue o perfume dos pratos que passam em direcção à sala de jantar, e aconchega-se no seu calor apressado e altruísta.
    Uma noite abri a porta e fui entrando devagar. Contra as janelas, a chuva forte do último dia de Agosto brilhava e escorria em várias direcções guiada pelo vento, desenhando mapas sobre os vidros. Distraída, deixava-se percorrer por caminhos desconhecidos, que a luz dos candeeiros da rua projectava em sombras mágicas nas paredes. 
    Só o grande relógio marcava ainda o ritmo certo do coração, que temera que eu não voltasse mais.  

Tea time

Josefa de Óbidos
Museu de Évora

Casas comigo

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei - ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

as casas são feitas de gente


Two-Lane Blacktop

Aprenderei a amar as casas
quando entender que as casas
são feitas de gente
que foi feita por gente
e que contém em si a possibilidade
de fazer gente.

matilde campilho/jóquei


O casaco de Hemingway

Rui  Chafes

25.6.14

Elegia

Na embriaguez vasta dos espaços
na solidão desértica da alma
o meu amor profundo pela arte 
o meu ódio selvagem contra mim

Ruy Belo/ Despeço-me da Terra da Alegria  

Depois da chuva

O génio é desinteressado

Schopenhauer faz uma excelente comparação ao dizer que a inteligência do homem medíocre se assemelha a uma lanterna de bolso que apenas ilumina o que procuramos, ao passo que a inteligência superior é como o sol, que tudo ilumina. Daí provém o objectivismo da arte genial. É  desinteressada.

curso de filosofia
em seis horas e 1/4
Witold Gombrowicz

Em lugar nenhum

Um sorriso caiu na relva.
Irrecuperavelmente!

E como irão perder-se
As tuas danças nocturnas. Na matemática?

Tão puros saltos e espirais-
Certamente viajam

Eternamente pelo mundo, não hei-de ficar
Despida de belezas, o dom

Do teu pequeno sopro, o cheiro
A terra molhada, lírios, lírios.

A sua carne não aguenta aproximações.
Frios vincos de um ego, o narciso,

E o tigre que se embeleza a si próprio-
Sinais e uma chuva de pétalas de fogo.

Os cometas
Têm um espaço tão grande a atravessar,

Tanta frieza, esquecimento,
Assim se esfumam teus gestos-

Calorosos e humanos, depois a sua luz rosa
A sangrar e a pelar

Entre as negras amnésias do céu.
Por que me dão

Estas luzes, estes planetas
Caindo como bênçãos, como línguas de luz

De seis pontas, brancas
Nos meus olhos, lábios, cabelo

Ao tocarem desfazem-se.
Em lugar nenhum.

As Danças da Noite
Sylvia Plath/Ariel

24.6.14

A festa e a tragédia


  Estive neste jogo. Foi no dia 18 de Maio de 1996, num belo dia de Primavera, no Estádio Nacional. Circunstâncias várias fizeram com que eu assistisse à final da Taça de Portugal, a um derby Benfica Sporting, um grande jogo.
  Sempre achei o futebol um espectáculo bonito, queria entrar num estádio e assistir a um jogo, sentir aquele ambiente pelo menos uma vez na vida.
  Em nossa casa o meu pai, um sportinguista sorumbático, vivia as suas derrotas e vitórias num quase silêncio, nunca lhe vi grandes manifestações a não ser um brilhozinho nos olhos ou uma exclamação de aborrecimento, enquanto o meu avô tratou de transformar todos os netos em benfiquistas, alguns ferrenhos como ele, vociferando, rindo, comemorando as vitórias ao som do hino do benfica, que todos sabíamos de cor.
  Lembro-me bem do tédio dos domingos, dos relatos por todo o lado, dos transistores encostados ao ouvido, da voz do locutor que conseguia transformar qualquer jogada num acontecimento imperdível, presa às pernas dos jogadores, às suas fintas, aos rodriguinhos, e se projectava na baliza num arco de golo, um arco de voz.
  Uma casa em que havia três homens era uma casa de futebol, juntava-se tudo na sala da televisão para ver os jogos, e até a minha mãe se aliava a nós, em exclamações e silêncios ansiosos nos momentos de maior tensão. Eu talvez fosse a menos assídua, não que não vibrasse com algumas jogadas, mas aquele suspense era demasiado angustiante, ver Portugal perder era uma tristeza, e então afastava-me e procurava outra ocupação, num acto de cobardia. 
  Com o tempo fui-me desinteressando, e mais tarde se ia ao cinema nos dias de grandes jogos, encontrava um rasto de papelinhos pendurados ou assentes sobre os móveis, feito pelo meu filho, com o resumo das jogadas e o resultado de um final, sobre o qual adormecera feliz ou infeliz, sonhando com o seu cachecol vermelho.
   A vontade de assistir a um jogo ao vivo cumpriu-se, manchada por uma tragédia logo a seguir ao primeiro golo. Um very-light atravessara todo o campo para atingir alguém . Eu estava do lado oposto, abriu-se uma clareira na bancada, morria um homem.

23.6.14

Sem palavras (sic)

Perspectiva 2 (Optiké 2)

Perspectiva 1 (Optiké 1)

                             


Entre sábios

À beira-rio, junto da criatura bela como a lua, rosa e o vinho,
Deliciar-me-ei enquanto estiver vivo.
Bebia vinho, bebo-o e beberei,
Até ao último minuto do meu destino.

Omar Khayyam

                                                    
« A filosofia prática de Khayyam reduz-se pois a um epicurismo suave, esbatido até ao mínimo do desejo de prazer.  Basta-lhe ver rosas e beber vinho. Uma brisa leve, uma conversa sem intuito nem propósito, um púcaro de vinho, flores, em isso, e em não mais do que isso, põe o sábio persa o seu desejo máximo.
  O amor agita e cansa, a acção dispersa e falha, ninguém sabe saber e pensar embacia tudo. Mais vale cessar em nós de desejar ou de esperar, de ter a pretensão fútil de explicar o mundo, ou o propósito estulto de o emendar ou governar. Tudo é nada, ou, como se diz na Antologia Grega, - tudo vem da sem-razão -, e é um grego, e portanto um racional, que o diz.»

Fernando Pessoa/ Livro do Desassossego

O dia depois de ontem

Somos compradores do vinho novo e velho,
E ao mesmo tempo vendedores do mundo ao preço de dois
           grãos de cevada
Perguntaste:«Após a morte para onde vais?»
Traz-me vinho! e vai tu onde quiseres.
Omar Khayyam


Da Pérsia

Dizem-me para beber menos vinho,
Qual é a causa desta paixão ruim?
É a face do amigo e a taça do alvorecer,
Seja justo: haverá motivo mais transparente que este?

Omar Khayyam/Ruba`iyat

22.6.14

Na ponta da solidão

Sem destino

             

De vez em quando, uma Harley-Davidson, com o seu rugir grave,
ultrapassa-o, com o vento a bater no cabelo do bronzeado
motard. É uma imagem claramente Easy Rider - liberdade, aventura
e o "sonho americano" de que algures, para lá da estrada,
estará um futuro melhor.

Viagens a fazer
     uma vez na vida/Steve Watkins . Clare Jones

Route 66

                                                                             
...And they came into 66 from the
tributary side roads, from
the wagon tracks and rutted country
roads, 66 is the mother road,
the road of flight.
         
 John Steinbeck/ As Vinhas da Ira

21.6.14

Interlúdio



A terra e a paisagem

  
Devia haver qualquer coisa na forma como eu olhava aquela paisagem,todo aquele despojamento humano,que fez com que o alentejano que estava comigo,e que antes tinha sido pastor naqueles vales, comentasse:
  -A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem a sabe olhar.
   E era assim connosco naqueles dias, também. Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar.

Miguel Sousa Tavares

No teu deserto
Quase Romance

20.6.14

Ilusão






Próprio de tantos   de nós próprios
acender velas ou riscar fósforos

sonhando sempre que são archotes

David Mourão-Ferreira/Obra Poética

O teu modo especial



You, you have your own special way.
Of carrying me twice round the world
Never closer to home than the day,
The day I started.

Génesis



e depois deixou de haver água, secou a terra,
esgotou-se o ar e extinguiu-se o fogo, e tudo demorou
seis dias.
Ao sétimo dia Deus morreu.

Comendo batatas


Os Comedores de Batatas (pormenor)
Nuenen, Abril de 1885
Vincent van Gogh




Ele queria viver e trabalhar como os agricultores com quem convivia. O seu sentido emocional de afinidade com eles era acompanhado e efectivamente quase definido pela proximidade geográfica (eram vizinhos) e pela proximidade de companheiros de trabalho (cujos afazeres eram determinados pelo ritmo do vento e da chuva). Como se o frio fizesse parte de um programa artístico qualquer, van Gogh fixara o seu cavalete na neve.

Van Gogh
Rainer Metzger. Ingo F. Walther

Botas com assinatura


Um Par de Sapatos
Paris,1887
Vincent van Gogh












Vincent assinou e (isto é raro)  datou o quadro. Queria deixar bem claro que esta pintura fora feita em 1887, ao contrário de outra que provavelmente data do Verão de 1886.

Van Gogh
Rainer Metzger.Ingo F. Walther

18.6.14

Uns olhos com o mar de Luanda

   Abria os olhos ao Domingo de manhã, e as manhãs começavam. É diferente acordar na savana ou num lugar qualquer, e nós acordámos sempre na savana. Acordámos sempre em África.
   Ao pequeno-almoço a minha mãe era Gene Tierney; Gene abria os olhos, da imensidade que nunca nos transmitiu, e essa imensidade era um continente. O seu poder ainda hoje incontestado, avançava ao longo do dia e prolonga-se ao longo dos anos. Não sabíamos que esses olhos poderosos podiam gerir pequenos-almoços e vidas. Como um felino ensinou-nos a avaliar a média distância, a controlar de perto, a sonhar com o longe.
   Não me parece que tenha ronronado só pelas suas crias. Tinha, tal como nos ensinou, sonhado com um outro sol, sem assinatura. Para trás ficou a jornalista que gostaria de ter sido, mas a paixão pela informação e pela rádio mantém-a interessada todos os dias. Ao meu pai dedicou todo o seu tempo. Foi a enfermeira, a amiga inseparável e a gestora atenta da sua longa doença.
   Em 1984 era tal e qual a Elizabeth Mcgovern, antes de tirar as máscaras.
   Hoje é a minha mãe, guerreira e inteligente, bela nos seus quase oitenta anos, os mesmos olhos sem outro mar.

    Nota:Gene Tierney foi Laura Hunt, no filme Laura de Otto Preminger(1944). Frank Sinatra, Carly Simon, Duke Ellington, Ella Fitzgerald e outros, eternizaram o tema do filme, mas é Dedorah's Theme, de Morricone, em Once Upon a Time in America(1984), que me fará sempre lembrar a minha mãe.

Obrigada Filipe, pela fotografia que me enviaste da mãe.

Admirável

E a admirável mãe dos seis filhos, presença discreta e decisiva na casa onde todos cresceram, que ele tiranizara toda a vida, é agora novamente mãe, a mãe de um filho tardio, inesperado, terno e grato. E os filhos são agora uma mão-cheia de avós perguntando como ele está, se come, se dorme, se anda, se tem febre ou tosse, como vive, como vivem os dois. E, secretamente, temem pelo dia em que as suas perguntas já não terão resposta.

João Lobo Antunes/A história de um velho

Mãos

Dá-me a tua mão.
Deixa que a minha solidão
Prolongue mais a tua
-para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.
Dá-me a tua mão, companheira,
Até o Abismo da ternura derradeira.

José Gomes Ferreira

Eu só sei de mim

A arte da sedução

Brígida  Arez

Na água se grava a assinatura da sedutora.
E no vento se esculpe o seu brasão.
        
David Mourão-Ferreira/Jogo de Espelhos

17.6.14

Gazania splendens

« Limites »

Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar,
Há uma rua próxima que está vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (que estou vendo)
Há um que nunca mais abrirei.
Este Verão cumprirei cinquenta anos;
A morte me desgasta, incessante.

Jorge Luís Borges/O Fazedor

16.6.14

Mudar de vida

JUNHO


   Mudei de vida. Talvez obrigado pelas circunstâncias, mas o que é um facto é que mudei de vida.(...)
   Não nos enganemos. Este mundo arrefecerá, uma estrela entre as estrelas e, por outro lado, uma das mais pequenas do universo, quer dizer, uma gota brilhante no veludo azul. Um dia, este mundo arrefecerá e escorregará na treva cega do infinito - não como uma bola de neve, não como uma nuvem morta -,como uma noz vazia.Creio que devemos ter isto em conta e amar o mundo constantemente, amá-lo tão conscientemente, que no final cada um de nós possa dizer:
vivi.
Enrique Vila-Matas/Diário Volúvel

O poema, o desafio e o fracasso

O desafio do torso arcaico de Apolo no famoso poema de Rilke, «Muda a tua vida», sempre esteve para mim no fulcro da significação. Achei-me mais próximo dele quando fracassei(bem sei que é este o dilema teológico por excelência).

George Steiner/ Errata:revisões de uma vida


A estátua, o poema e a vida

 Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta


e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.


   
Torso masculino
480-470 AC (Período Arcaico-transição)
       Proveniência: Mileto
    Mármore                 
   altura 1.32 m           
                                                                                                   















   
Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há 
que não te mire. Força é mudares de vida.



Rainer Maria Rilke/Torso Arcaico de Apolo
Trad. Manuel Bandeira
Torso:Museu do Louvre