Atalhos de Campo


17.5.14

Um relógio chamado Tadzio

   Como não gosto nada de ter coisas avariadas em casa, tratei de mandar arranjar o meu despertador gigante, que vigio de manhã, ao segundo, quando parece que o tempo acelera, e deixa todos os relógios adiantados. Foi por acaso que passei por uma pequena loja com relógios na montra, e ao transpor a porta, vencendo a minha habitual timidez, vi-me num mundo encantado que media o tempo, não com a avidez contemporânea da electrónica, mas com a cadência da casa das nossas avós.
    Colocados em prateleiras antigas, dezenas de relógios aguardavam diagnóstico, enquanto outros, pendurados nas paredes, ou de pé, olhando-nos orgulhosos do alto da sua torre, continuavam teimosamente a compassar o tempo elegante das cidades, ou brasonado dos campos. Outros ainda, descansavam de viagens e caravanas, que tinham chegado a bom termo e a horas, pelo menos pelos padrões que medem a aventura.
    E foi lá que deixei o meu modesto despertador, com a promessa de que voltaria são e salvo ao seu lugar habitual, e em poucos dias, prosseguiria a sua tarefa de me regular a vida.
    Numa tarde complicada do século xxi, em que sobretudo os relógios adiantados, mesmo que patologicamente, fazem falta, entrei apressada na loja. Sobre o balcão, num berço de recém-nascido, dormia um bebé. Entre lençóis e mantinhas, a salopete e o casaquinho cor de pérola, sobressaía a pele rosada das mãos e do rosto sereno e belo que, parcialmente coberto por uma boina tricotada à mão, parecia sorrir.
    O adagio da Quinta Sinfonia de Mahler, que tocava baixinho na rádio, adormecera aquele pequeno príncipe, num outro tempo, o tempo biológico, que tem outras medidas, alheio ao stress das cidades em hora de ponta.
    O relógio da igreja em frente, em que se adivinhavam os jogos dos rapazes no átrio, pelo som que a brisa arrefecida pelo rio trazia em piruetas de folhas secas, despertou-me daquele momento mágico, com as suas badaladas desigualadas, seguido em uníssono por todos os relógios da loja, num hino à vida, cujo maestro era aquele pequeno coração.
    O bebé sereníssimo, nem estremeceu.
    Eram cinco da tarde em ponto, e a minha alma chegava a Veneza, num vaporetto.