Atalhos de Campo


20.5.14

Sempre


       

« Inscrevi o teu nome na pedra com um buril. Essa casa era mágica. Todos os espaços tinham uma forma trapezoidal. As janelas do quarto davam para a copa das árvores. Na primeira noite, não dormimos. Cada um escutava a respiração do outro. Depois um rouxinol pôs-se a cantar e um outro, mais ao longe, respondia-lhe. Falávamos muito pouco. Eu passava o dia a cavar a terra e levantava os olhos de tempos a tempos para a janela do quarto. Mantinhas-te lá, imóvel, de olhar fixo num ponto longínquo. Estou certo de que trabalhavas no sentido de domar a morte, a fim de a combateres sem receio. Eras tão bela e decidida no teu silêncio que eu não conseguia imaginar que pudesses renunciar a viver.»

André Gorz/Carta a D. História de um amor