Atalhos de Campo


11.5.14

Quem te perdeu

     Anorak vermelho, cabelo negro ao vento, o pescoço forte a equilibrar os embates da moto 4 no terreno, assim visto de trás, ao cair da noite, já com pouco tempo de luz, e o frio a subir da terra, o som do motor acelerado a arquejar no ar, o único som que conseguia irritar aquele entardecer, as paragens para observar os sobreiros e descobrir as landes, caídas da altura de um céu, assim nessa determinação te adivinhava a pressa, que todas as sementes têm em revelar o seu segredo.
     E noutras paragens te adivinhava, nos desertos da vida e do mundo, em todos eles o mesmo olhar focado de travessia, os mesmos braços a guiar, deixando para trás o que inevitavelmente ficava, acreditando em bússolas que apontavam para sul.
     Em tudo perpassava esse sorriso largo, de suspenso atrevimento, numa pausa em que o sério pedia tréguas, um sorriso que era promessa de olhar antigo, enquistado no tempo, também ele semente, agora pronta a germinar.
     Nesse calor, aprendi o lume, da lenha, que se tem que a cortar, senão é sombra e árvore.
     Na casa fria, dorme o quarto, e na sala hiberna um clarinete, esperando os dedos de outra nostalgia.
     E debaixo das estrelas deste céu, hoje sei que fui eu quem te perdeu.