Atalhos de Campo


15.5.14

Parque Jurássico

Por vontade dela passava os dias atrás de mim. Mal me pressente perto da capoeira vem a correr com um gorjeio de contentamento; se eu entro com comida contrasta com a azáfama dos outros galináceos e fica primeiro acocorada à espera de festas. Das primeiras vezes achei estranho, tive receio de lhe tocar, mas ela passou a impor a sua vontade e exigiu atenção permanecendo quieta com as asas ligeiramente abertas, hipnotizando-me com o olhar. Agora temos o nosso ritual, passo-lhe primeiro a mão pelas penas do dorso, tão macias e brancas, tão limpas e penteadas pelo bico em sessões prolongadas ao ar livre, e depois chamo-lhe peruzinha, deusa branca, minha deusa, e outras coisas ridículas, enquanto lhe faço festas na cabeça e ela fecha e abre os olhos, consolada. Mexe-se com dificuldade, carregando de cada lado do peito com vários quilos de bife, razão pela qual foi seleccionada. Há uns tempos disse-lhe, em segredo, que esquecesse aquela história dos bifes, que enquanto eu vivesse, ela também viveria. Ela em sinal de agradecimento pôs sessenta ovos. E agora já nem sei se sou eu a ave jurássica, ou se é ela que é igual a mim.