Atalhos de Campo


27.5.14

Onde canta galo, não canta galinha

Não, não era uma vez um galo; não, não era ela, mas eu; não, não era numa quinta, mas aqui. E se esperarem um bocadinho,tiro-lhe uma fotografia, para terem a certeza. É que eu ando com um problema de há uns tempos para cá, um problema com um galo absurdo, um pedrês de trazer por casa, um galaró que não se enxerga. Aconteceu assim: ele vinha fraco e era pequeno em relação aos outros galos que já se brigavam pela liderança do galinheiro, mas por isso mesmo foi o escolhido para ficar. Literalmente foi a votos e ganhou. Os outros, cada um por sua vez, acabaram como é costume acabarem os galos, e é melhor nem falarmos disso. Deixou de haver despique nas cantorias, canta daqui, canta dali, ficou só este a cantar sozinho e a tranquilidade voltou ao galinheiro. Quinta que é quinta que se preze tem que ter um galo a cantar de madrugada, ele lá foi cumprindo a sua função de despertador e obrigando tudo a acordar com as galinhas. Até aqui tudo bem, mas agora lembrei-me que por acaso eu nem gosto de acordar cedo. É que até lhe apreciava o cavalheirismo - sempre o último a comer, quase abria a porta do galinheiro para deixar as frangas passar primeiro - os meneios - ia buscar um grão de milho e oferecia primeiro antes de comer (se comesse) - os galanteios a arrastar a asa, os gorjeios enquanto fazia piruetas para atrair a atenção - enfim um Don Juan, digno de se apreciar. Convém dizer que elas não lhe ligavam nenhuma, quem se divertia era eu que me ria dos seus truques, sempre os mesmos, o ar emproado, o cor de laranja do olho a controlar, o pescoço esticado a terminar na crista que o fingia de rei. Das galinhas. Já tinha ouvido dizer que os galos por vezes atacam as pessoas mas não achava possível que isso acontecesse comigo, que o tratava tão bem. O facto é que aconteceu.


Uma vez, à hora da última refeição, quase de noite, quando me preparava para os guardar nesse Taj Mahal que é a casa onde os galináceos dormem em segurança com pavões e perus, fui perseguida por ele, que, literalmente e sem cerimónias, se atirou a mim. Defendi-me como pude escudando-me com o cesto onde levava os ovos e saí da capoeira escorraçada e humilhada, com uma gemada a escorre-me pelas calças abaixo. A partir daí fiz várias tentativas infrutíferas para entrar no galinheiro. O tirano parecia já estar à espera e preparado para me agredir, até que desisti e pensei, tenho pena mas a partir de agora é ele, ou eu. E ficou em prisão preventiva numa casa mais pequena, dentro do recinto onde passeiam, a aguardar sentença. Já me apeteceu dar-lhe outra oportunidade, mas tenho a certeza de que vai correr mal.      
    
    
Dedico esta história ao meu Pai, que faria hoje 86 anos, e que me diria sabiamente: convida-me para almoçar, gosto muito de fricassé.