Atalhos de Campo


31.5.14

O pequeno segredo de "Angie"

   Lembrei-me ontem da capa de um single dos Rolling Stones, da  capa do Angie, a capa censurada.Tive que lhe fazer à pressa  um vestido, para lhe tapar a loira nudez, irreverente (concordo),
ou o disco também era confiscado, e lá se ia a música, a guitarra acústica, a voz do Mick Jagger...tudo, e acabaria o mundo. As dezenas de vezes que o ouvi cantar aquela que éramos
todas nós, as angies dessa altura, como se canta o amor na adolescência, e se ouve sem moderação, até à exaustão, e ainda mais, quando é um amor impossível.
   Até que aquela Angie se calou para sempre, esgotou.
   Os Rolling Stones actuaram ontem no Rock in Rio, e eu pensava que nunca os tinha ouvido ao vivo, não tinham calhado  no meu percurso, eu que fui a tantos concertos, e pensava nisto enquanto passeava os cães, sem pena nenhuma de não estar  agora porque o céu estava baço, não me devolvia nem eco, nem luz.
   Hoje voltei a pensar na capa, com um desenho colado por cima. Há quarenta anos, dava-se importância a cada coisa que jamais me passaria pela cabeça quando eduquei o meu filho, e no entanto as letras que ouvíamos eram por vezes bastante mais perturbadoras do que uma caricatura de nudez podia esconder. 
   O êxito da música foi estrondoso, Angie atingiu todos os tops, incluindo o lá de casa, e especulava-se sobre quem seria aquela loira, agora escandalosa.
   Qual era afinal o segredo de Angie? Sempre seria a primeira mulher do David Bowie, ou como escreve Keith Richards, (que fez grande parte da letra e da música) na sua autobiografia, um pseudónimo para heroína, a droga de que se queria libertar? 
        Talvez seja ainda hoje ou venha a ser, o que cada um de nós quiser, mas a minha Angie ficará para sempre ligada a esta miúda, de olhos postos no infinito, e à mulher que não perdeu a miúda, graças a Deus.