Atalhos de Campo


23.5.14

O cedro


 Era apenas um cedro. Via-se da janela da cozinha, que dava para vários jardins; um quintalinho com uma nespereira ao centro, o   jardim da casa solarenga à esquerda, onde uma vez por ano, no verão, havia uma grande festa, e cujas casuarinas floriam dentro da nossa cozinha todas as primaveras, e o pátio daquele colégio, à direita, um antigo palacete, onde estava o cedro, à sombra do qual alguém se sentara a ler Victor Hugo.
 Foi exactamente por isso que fiquei com a casa, por causa daquelas traseiras, por causa daquele cedro, das suas raízes, e do que o céu me dizia por causa dos seus ramos, ele que era o prédio mais alto das redondezas, a casa de todos os pardais e de todos os melros,
os primeiros a acordar mal nascia o sol, ainda as crianças dormiam e sonhavam com aquele recreio, de corridas, de jogos e de canções.
   Assim recomeçámos, com o teu quarto e o meu, e dois copos, dois talheres, duas cadeiras e uma mesa, e a música dos pássaros pela madrugada, e as casuarinas que entravam pela nossa janela sempre aberta sobre o jardim.
   Passaram dois anos, até que pensei, talvez já consiga ter mais dois lugares à mesa, talvez já consiga ter um ou dois convidados, talvez já consiga fazer-te a surpresa de ter uma televisão, para poderes ver jogar o benfica.
    Assim foste crescendo, ganhando raízes como o cedro, apanhando o céu como ele, durante alguns anos, naquela casa, a nossa primeira casa. 
    A rua era muito íngreme, muito marcada por grandes olheiras negras provocadas pelo cansaço dos carros, e pelas suas queixas ruidosas e desesperadas, e só tinha um sentido, o sentido daquele esconderijo secreto, jamais adivinhado por quem passava.
    E foi então que aconteceu, e foi muito rápido. Era um sábado, eu tinha acabado de chegar a casa e ouvi um som estranho, vindo das traseiras. O cedro já não tinha ramos, era agora um enorme mastro erguido no céu; depois aproximou-se um helicóptero, do qual desceu uma escada, e foram cortando todos os andares daquele arranha-céus, até ele desaparecer.
     Eram férias de verão; o colégio não reabriu, demoliram parte do palacete, destruíram o recreio e tivemos que conviver com o barulho das obras, até surgir um condomínio fechado com escritórios, que assim ficou durante muito tempo.