Atalhos de Campo


28.5.14

Ele gostava de tê-la por perto


Juliet Browner

   Juliet podia ser uma fénix, saída de um bailado de Martha Graham e que agora nua, e em liberdade, pousara entre a luz e a sombra. Há nela uma inconstância de ave que aprendeu a ouvir a floresta, o som dos galhos, das folhas ao vento, da água por entre as pedras, e que captando o perigo iminente, prepara o voo, mas que por segundos pertence a este momento perfeito. Em breve a noite dissolverá toda a luz, fará desse fim de tarde um negativo, e devolverá Juliet à cidade de Los Angeles, e a floresta à sua impenetrabilidade.
        Apenas Juliet continuará a ser captada pelo olhar do fotógrafo. E ele vai fazê-lo de forma obsessiva.
                                                                     

   É um olhar que ao mesmo tempo, descobre e oculta, desnuda e veste, esconde e liberta, e enfrenta sem expor. É voyeur e íntimo. Pegará no lápis e sublinhará o exotismo, perseguindo a versatilidade do rosto, e o corpo ressurgirá singular e único, numa mistura de veneração e de técnica. Adivinha-se aqui muita cumplicidade, muitos risos, muito silêncio contemplativo, muita concentração, e um objectivo.
   Começará em 1941, e em pouco mais de uma década, provando o que um rosto faz a uma década, Man Ray terá criado The Fifty Faces of Juliet, um enorme portefólio, em que reinventa uma e a mesma mulher, numa homenagem à sua derradeira musa.
   Doze anos depois, fará a última fotografia. Juliet olha a câmara de frente, sem adornos, já não há hollywood nem pose, apenas o seu rosto importa aqui, mais uma vez entre a luz e a sombra, luz que extravasa o rosto e imortaliza a alma.
   Luz que dois anos depois, abandonará a mesma fotografia -talvez porque ele tenha conseguido roubá-la, como só os grandes fotógrafos conseguem fazer à luz, nesse processo divino que é criar, como ele dizia, porque reproduzir é humano - que ressurgirá táctil e petrificada, como um baixo relevo.
   Juliet Browner, que fora aluna de Martha Graham, e modelo, morreu quinze anos depois de Man Ray, com quem viveu durante quase trinta, e foi enterrada no mesmo túmulo que o marido, em Montparnasse.
   No epitáfio pode ler-se: « Together Again »
   E assim se reuniu, de novo, a luz e a sombra.