Atalhos de Campo


22.5.14

Aprender a amar

   Assim se passa em nós com a música:em primeiro lugar tem que se aprender a ouvir uma forma, uma melodia, discerni-la pelo ouvido e distingui-la, isolá-la e delimitá-la como uma vida em si; depois é preciso esforço e boa vontade para a suportar, apesar da sua estranheza, praticar a paciência com o seu aspecto e expressão, o bom coração com a sua singularidade; finalmente, chega o momento em que estamos habituados a ela, em que a esperamos, em que pressentimos que nos faria falta, se nos faltasse; e então opera ela o seu domínio e fascínio mais e mais, e não acaba antes de nos tornarmos os seus humildes e enlevados amantes, que já não querem mais nada do mundo, senão a ela e só a ela.
   Mas não se passa assim connosco só com a música: precisamente assim aprendemos nós a amar todas as coisas que amamos agora. Acabamos sempre por ser recompensados pela nossa boa vontade, a nossa paciência, equidade, ternura para com o que é estranho, na medida em que essa estranheza lentamente despe o seu véu e se revela com uma nova e indizível beleza: é a sua gratidão pela nossa hospitalidade. Também quem a si própio se ama, tê-lo-á aprendido por esta via, não há outra. Também é preciso 
aprender o amor.
Nietzsche/A Gaia Ciência