Atalhos de Campo


20.5.14

A pensar em ti

Outro dia ia jurar que me chamaste. Mãeeee...?! Esse teu mãe ligeiramente arrastado, um mãe que era forte no início e acabava entre a dúvida e a expectativa. Lembro-lhe o timbre à espera de resposta, e depois um silêncio, que tinha um gesto dentro, um sorriso dentro; um Mãe que era assim: eeee... 
Lembro-me das manhãs apressadas, dos teus sons tão cedo, da água que se demorava no chuveiro, do som do micro-ondas (entre nós microwave device), das portas que batiam com dúvidas sobre a cor da gravata, das gavetas num vaivém - e eu às voltas na cama -, dos sapatos zangados com o soalho, - e eu quase a praguejar - por fim a porta da rua fechava com estrondo, os passos diminuíam na escada... Finalmente, silêncio. Mas era um silêncio benigno de até já, de até logo. De repente desapareceu o som. Amanhece e não há nenhuma luta a travar aqui. Por isso acordo devagar. Sobra-me casa pelos braços e pelas pernas, sobra-me casa no olhar e no pensamento, uma casa XXL que vive noutro lugar, que mudou de país. E de continente. Outro dia ia jurar que me chamaste, mas agora já sei que vivo apenas no meu silêncio, mas ainda com a tua música dentro.