Atalhos de Campo


31.5.14

Rosas para Beethoven

O pequeno segredo de "Angie"

   Lembrei-me ontem da capa de um single dos Rolling Stones, da  capa do Angie, a capa censurada.Tive que lhe fazer à pressa  um vestido, para lhe tapar a loira nudez, irreverente (concordo),
ou o disco também era confiscado, e lá se ia a música, a guitarra acústica, a voz do Mick Jagger...tudo, e acabaria o mundo. As dezenas de vezes que o ouvi cantar aquela que éramos
todas nós, as angies dessa altura, como se canta o amor na adolescência, e se ouve sem moderação, até à exaustão, e ainda mais, quando é um amor impossível.
   Até que aquela Angie se calou para sempre, esgotou.
   Os Rolling Stones actuaram ontem no Rock in Rio, e eu pensava que nunca os tinha ouvido ao vivo, não tinham calhado  no meu percurso, eu que fui a tantos concertos, e pensava nisto enquanto passeava os cães, sem pena nenhuma de não estar  agora porque o céu estava baço, não me devolvia nem eco, nem luz.
   Hoje voltei a pensar na capa, com um desenho colado por cima. Há quarenta anos, dava-se importância a cada coisa que jamais me passaria pela cabeça quando eduquei o meu filho, e no entanto as letras que ouvíamos eram por vezes bastante mais perturbadoras do que uma caricatura de nudez podia esconder. 
   O êxito da música foi estrondoso, Angie atingiu todos os tops, incluindo o lá de casa, e especulava-se sobre quem seria aquela loira, agora escandalosa.
   Qual era afinal o segredo de Angie? Sempre seria a primeira mulher do David Bowie, ou como escreve Keith Richards, (que fez grande parte da letra e da música) na sua autobiografia, um pseudónimo para heroína, a droga de que se queria libertar? 
        Talvez seja ainda hoje ou venha a ser, o que cada um de nós quiser, mas a minha Angie ficará para sempre ligada a esta miúda, de olhos postos no infinito, e à mulher que não perdeu a miúda, graças a Deus.       

30.5.14

Não há pequenos segredos

Finalmente é revelado o segredo

Celeste Maia
Festas Secretas 1995

      Finalmente é revelado o segredo, como sempre acontece,
           no fim,
      Está a deliciosa história em condições de ser contada
           ao amigo íntimo;
      Enquanto se toma o chá e é na praça que a língua satisfaz o
           seu desejo;
      Águas serenas correm fundas, meu amor, não há fumo sem
           fogo.

      Por detrás do cadáver na represa, por detrás do fantasma no
           campo de golfe,
      Por detrás da senhora que dança e do homem que bebe como
           um louco,
      Sob o olhar de fadiga, o ataque de enxaqueca e o suspiro
      Há sempre uma outra história, há mais do que aquilo que se
           vê.

      Na voz límpida que surge a cantar lá no alto das  muralhas
           do convento,
      No perfume dos sabugueiros, nas revistas desportivas junto
           da entrada,
      Nas partidas de cróquete no verão, no aperto de mão, na
           tosse, no beijo,
      Há sempre um cruel segredo, uma justificação confidencial
           para isto.
                                                 Abril 1936
      W.H.Auden/Diz-me a verdade acerca do Amor
          dez poemas


Válido por um ano

                                            


Handmade
 





Espiga de trigo- pão
Malmequer - ouro
Papoila - amor e vida
Oliveira -azeite,  paz e luz




29.5.14

Em busca do tempo perdido

Tradição

Vivemos entre estatísticas alarmantes sobre a decadência dos livros e exortações enfáticas à leitura, destinadas quase sempre aos mais jovens. Devemos ler para nos abrirmos ao mundo, para nos tornarmos mais humanos, para aprendermos o desconhecido, para aumentarmos o nosso espírito crítico, para não nos deixarmos estupidificar pela televisão, para nos distinguirmos melhor dos chimpanzés, que são tão parecidos connosco.
Fernando Savater/O meu dicionário Filosófico

Umas para as outras

Botelho
S. Pedro de Alcântara
Sobes a um miradouro para ver tudo isto:
talvez a cidade não seja assim tão branca
mas também ocre e rosa e amarelo torrado,

e gostes mais das ruas ao vê-las de cima,
no seu desenho, e penses que o rio é mais
azul quando surge ao fundo de uma rua,


por entre as casas, e não assim, completo,
e talvez vejas parques e igrejas
que respiram a pequena azáfama diurna,

e talvez nascer aqui tenha sido um acidente,
e não tenhas um vínculo mas uma afeição
que nasce do hábito e da tranquilidade,

e descubras que és um estranho entre as gentes
(não conheces mais de um terço
do que vês e chamas-lhe a tua cidade).

Ainda assim sabes que há outros miradouros
e que as pessoas aí também não olham para a cidade
mas umas para as outras. Umas para as outras.

Umas para as outras.

Pedro Mexia/Lisboa,S.Pedro de Alcântara
Menos por Menos






O jardim a dormir

28.5.14

Segue-me até à página 51

Ele gostava de tê-la por perto


Juliet Browner

   Juliet podia ser uma fénix, saída de um bailado de Martha Graham e que agora nua, e em liberdade, pousara entre a luz e a sombra. Há nela uma inconstância de ave que aprendeu a ouvir a floresta, o som dos galhos, das folhas ao vento, da água por entre as pedras, e que captando o perigo iminente, prepara o voo, mas que por segundos pertence a este momento perfeito. Em breve a noite dissolverá toda a luz, fará desse fim de tarde um negativo, e devolverá Juliet à cidade de Los Angeles, e a floresta à sua impenetrabilidade.
        Apenas Juliet continuará a ser captada pelo olhar do fotógrafo. E ele vai fazê-lo de forma obsessiva.
                                                                     

   É um olhar que ao mesmo tempo, descobre e oculta, desnuda e veste, esconde e liberta, e enfrenta sem expor. É voyeur e íntimo. Pegará no lápis e sublinhará o exotismo, perseguindo a versatilidade do rosto, e o corpo ressurgirá singular e único, numa mistura de veneração e de técnica. Adivinha-se aqui muita cumplicidade, muitos risos, muito silêncio contemplativo, muita concentração, e um objectivo.
   Começará em 1941, e em pouco mais de uma década, provando o que um rosto faz a uma década, Man Ray terá criado The Fifty Faces of Juliet, um enorme portefólio, em que reinventa uma e a mesma mulher, numa homenagem à sua derradeira musa.
   Doze anos depois, fará a última fotografia. Juliet olha a câmara de frente, sem adornos, já não há hollywood nem pose, apenas o seu rosto importa aqui, mais uma vez entre a luz e a sombra, luz que extravasa o rosto e imortaliza a alma.
   Luz que dois anos depois, abandonará a mesma fotografia -talvez porque ele tenha conseguido roubá-la, como só os grandes fotógrafos conseguem fazer à luz, nesse processo divino que é criar, como ele dizia, porque reproduzir é humano - que ressurgirá táctil e petrificada, como um baixo relevo.
   Juliet Browner, que fora aluna de Martha Graham, e modelo, morreu quinze anos depois de Man Ray, com quem viveu durante quase trinta, e foi enterrada no mesmo túmulo que o marido, em Montparnasse.
   No epitáfio pode ler-se: « Together Again »
   E assim se reuniu, de novo, a luz e a sombra. 

Voando


Celeste Maia
                                                     
Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar do meio-dia,
universo que estremece
paisagem solitária.

Octavio Paz/Teus olhos

De manhã, lá fora


É aqui pouco frequente, durante a primavera e verão,
porque prefere viver em bosques e matas, onde a
frescura é maior. No entanto, já vi vários 
nesta altura do ano, talvez porque há ainda água 
na ribeira e freixos frondosos, mas também muitas
outras árvores a rodear a casa, onde cantam todo
o dia centenas de pássaros.
Este é o Pisco-de-peito-ruivo.

27.5.14

Tocata e fuga

Igreja de S. Roque


A quinta dos animais

Nenhum dos outros animais da quinta conseguiu ir além da letra A.
Verificou-se também que os animais mais estúpidos, como as ovelhas, as galinhas e os patos, eram incapazes de decorar os Sete Mandamentos. Depois de muito meditar, Bola-de-Neve declarou que, na verdade, os Sete Mandamentos se podiam reduzir a uma única máxima, a saber: «Quatro patas bom, duas pernas mau». Este lema, disse, continha o princípio essencial do Animalismo. Quem quer que o assimilasse devidamente estaria a salvo de influências humanas. De início as aves protestaram, pois parecia-lhes que também elas tinham duas pernas, mas Bola-de-Neve demonstrou-lhes que estavam enganadas.
   -A asa de uma ave, camaradas - explicou - ,é um órgão de locomoção e não de manipulação. Deve portanto ser encarado como uma pata. A marca distintiva do homem é a mão, o instrumento que ele usa para cometer todas as velhacarias.

A Quinta dos Animais/George Orwell 

Primavera Silenciosa

Onde canta galo, não canta galinha

Não, não era uma vez um galo; não, não era ela, mas eu; não, não era numa quinta, mas aqui. E se esperarem um bocadinho,tiro-lhe uma fotografia, para terem a certeza. É que eu ando com um problema de há uns tempos para cá, um problema com um galo absurdo, um pedrês de trazer por casa, um galaró que não se enxerga. Aconteceu assim: ele vinha fraco e era pequeno em relação aos outros galos que já se brigavam pela liderança do galinheiro, mas por isso mesmo foi o escolhido para ficar. Literalmente foi a votos e ganhou. Os outros, cada um por sua vez, acabaram como é costume acabarem os galos, e é melhor nem falarmos disso. Deixou de haver despique nas cantorias, canta daqui, canta dali, ficou só este a cantar sozinho e a tranquilidade voltou ao galinheiro. Quinta que é quinta que se preze tem que ter um galo a cantar de madrugada, ele lá foi cumprindo a sua função de despertador e obrigando tudo a acordar com as galinhas. Até aqui tudo bem, mas agora lembrei-me que por acaso eu nem gosto de acordar cedo. É que até lhe apreciava o cavalheirismo - sempre o último a comer, quase abria a porta do galinheiro para deixar as frangas passar primeiro - os meneios - ia buscar um grão de milho e oferecia primeiro antes de comer (se comesse) - os galanteios a arrastar a asa, os gorjeios enquanto fazia piruetas para atrair a atenção - enfim um Don Juan, digno de se apreciar. Convém dizer que elas não lhe ligavam nenhuma, quem se divertia era eu que me ria dos seus truques, sempre os mesmos, o ar emproado, o cor de laranja do olho a controlar, o pescoço esticado a terminar na crista que o fingia de rei. Das galinhas. Já tinha ouvido dizer que os galos por vezes atacam as pessoas mas não achava possível que isso acontecesse comigo, que o tratava tão bem. O facto é que aconteceu.


Uma vez, à hora da última refeição, quase de noite, quando me preparava para os guardar nesse Taj Mahal que é a casa onde os galináceos dormem em segurança com pavões e perus, fui perseguida por ele, que, literalmente e sem cerimónias, se atirou a mim. Defendi-me como pude escudando-me com o cesto onde levava os ovos e saí da capoeira escorraçada e humilhada, com uma gemada a escorre-me pelas calças abaixo. A partir daí fiz várias tentativas infrutíferas para entrar no galinheiro. O tirano parecia já estar à espera e preparado para me agredir, até que desisti e pensei, tenho pena mas a partir de agora é ele, ou eu. E ficou em prisão preventiva numa casa mais pequena, dentro do recinto onde passeiam, a aguardar sentença. Já me apeteceu dar-lhe outra oportunidade, mas tenho a certeza de que vai correr mal.      
    
    
Dedico esta história ao meu Pai, que faria hoje 86 anos, e que me diria sabiamente: convida-me para almoçar, gosto muito de fricassé.        

26.5.14

Contradição

A malícia de Kant. Kant queria provar de uma forma chocante para «toda a gente» que «toda a gente» tinha razão. Era esta a secreta malícia dessa alminha. Escreveu contra os letrados em prol do preconceito do povo, escreveu, porém, para os letrados e não para o povo.
Nietzsche/A Gaia Ciência

A sustentável leveza

Rui Chafes

Deixa-a a falar

25.5.14

Fala com ele

Primeira bailarina

Cosmos bipinnatus


Dancem, dancem ou então estamos perdidos/ Pina Bausch




Simples e íntimo



O homem absurdo

                                                                                                           
Rui Chafes
                       


                     
« Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me, pela primeira vez, à terna indiferença do Mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução, e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio. »

Albert Camus/ O Estrangeiro

O século da indiferença

  Ontem li esta análise que Camus fez, sobre os séculos anteriores ao século XXI: «O século XVII foi o século das matemáticas, o XVIII, o das ciências e físicas e o XIX  o da biologia. O nosso século XX é o século do medo.»
  Apetece-me acrescentar que o século XXI é o século da indiferença.

Os jardins regulares

 
Pobres das flores nos canteiros
dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram à solta para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam...

Alberto Caeiro/Poesia 

Os ossos e o ofício


 Um dia cheio este sábado que passou. Enquanto um tractor
logo cedo escarificava a terra, abrindo-lhe sulcos profundos para a tornar mais apta para a sementeira( neste caso erva do sudão )se chover, ou mais preparada para um pousio no caso contrário, era preciso tirar a ligadura gessada a uma borrega, que há um mês fracturou a região do curvilhão ao saltar uma cerca. Assim se fez, e felizmente saiu sem coxear, para o meio do rebanho à procura da mãe.

    
 Um dia de sol é sempre motivo para jardinar, aproveitar a terra humedecida pela chuva para apanhar as ervas que sempre vão aparecendo, cortar as flores velhas para estimular novas florações, retirar as folhas mortas, podar aqui e ali e por fim regar, aproveitando a água do lago das carpas, que é mais nutritiva do que a água do furo.





  
 As rotinas de uma quinta não têm fim- de-semana. É preciso tratar os animais, dar feno às vacas, soltar as galinhas e dar-lhes ração, recolher os ovos, regar o pomar e a horta.
 E depois há sempre cercas para consertar, um portão que está empenado, o pátio que é preciso varrer, uma árvore que é preciso tratar.

Levantar cedo...

24.5.14

O dia conquistado

(...)Depois, libertado tanto do deus do momento como do da eternidade, embora sem aquela ânsia de tirar a força aos dois, seguiu-se um período de um terceiro poder, de um poder meramente do aqui, declaradamente mundano, e este - não me interessa o quê, helenos, o vosso culto ao kairos, a vossa felicidade celestial, cristãos e muçulmanos - apostou em algo que estava a meio dos dois, pela conquista de cada uma das minhas coisas de aqui, porque se conquistara o tempo único da vida.(...)
Peter Handke,Ensaio sobre o dia conquistado

Flores para Mozart

23.5.14

O cedro


 Era apenas um cedro. Via-se da janela da cozinha, que dava para vários jardins; um quintalinho com uma nespereira ao centro, o   jardim da casa solarenga à esquerda, onde uma vez por ano, no verão, havia uma grande festa, e cujas casuarinas floriam dentro da nossa cozinha todas as primaveras, e o pátio daquele colégio, à direita, um antigo palacete, onde estava o cedro, à sombra do qual alguém se sentara a ler Victor Hugo.
 Foi exactamente por isso que fiquei com a casa, por causa daquelas traseiras, por causa daquele cedro, das suas raízes, e do que o céu me dizia por causa dos seus ramos, ele que era o prédio mais alto das redondezas, a casa de todos os pardais e de todos os melros,
os primeiros a acordar mal nascia o sol, ainda as crianças dormiam e sonhavam com aquele recreio, de corridas, de jogos e de canções.
   Assim recomeçámos, com o teu quarto e o meu, e dois copos, dois talheres, duas cadeiras e uma mesa, e a música dos pássaros pela madrugada, e as casuarinas que entravam pela nossa janela sempre aberta sobre o jardim.
   Passaram dois anos, até que pensei, talvez já consiga ter mais dois lugares à mesa, talvez já consiga ter um ou dois convidados, talvez já consiga fazer-te a surpresa de ter uma televisão, para poderes ver jogar o benfica.
    Assim foste crescendo, ganhando raízes como o cedro, apanhando o céu como ele, durante alguns anos, naquela casa, a nossa primeira casa. 
    A rua era muito íngreme, muito marcada por grandes olheiras negras provocadas pelo cansaço dos carros, e pelas suas queixas ruidosas e desesperadas, e só tinha um sentido, o sentido daquele esconderijo secreto, jamais adivinhado por quem passava.
    E foi então que aconteceu, e foi muito rápido. Era um sábado, eu tinha acabado de chegar a casa e ouvi um som estranho, vindo das traseiras. O cedro já não tinha ramos, era agora um enorme mastro erguido no céu; depois aproximou-se um helicóptero, do qual desceu uma escada, e foram cortando todos os andares daquele arranha-céus, até ele desaparecer.
     Eram férias de verão; o colégio não reabriu, demoliram parte do palacete, destruíram o recreio e tivemos que conviver com o barulho das obras, até surgir um condomínio fechado com escritórios, que assim ficou durante muito tempo.
        

Os dois caminhos



E nós somos como frutos. Estamos suspensos lá no alto, em ramos singularmente emaranhados, fustigados por muitos ventos. O que possuímos é a nossa maturidade, doçura e beleza. Mas a força que produz tudo isso corre em um único tronco a partir de uma raiz que se tornou vasta e se estende por mundos em todos nós. E, se quisermos dar testemunho da sua força, cada um de nós tem de a utilizar no sentido mais solitário. Quanto mais solitário, mais solene, pungente e poderosa é a sua comunalidade.

Rainer Maria Rilke/Notas sobre a melodia das coisas
                                                

A Terra

O sétimo planeta foi, pois a Terra.
A Terra não é um planeta qualquer! Conta com cento e onze reis-sem esquecer, evidentemente, os reis negros-, sete mil geógrafos, novecentos mil homens de negócios, sete milhões e meio de bêbados, trezentos e onze milhões de vaidosos, isto é, cerca de dois biliões de pessoas crescidas.
Antoine de Saint-Exupéry/O Principezinho

Um outro mundo


De que  serve frequentar Platão, quando um saxofone é
igualmente capaz de nos fazer entrever um outro mundo?

Emil Cioran

Perseguidos pelas origens


                                                                  
Hitler é sem dúvida o personagem mais sinistro da história.
E o mais patético. Ele conseguiu realizar
o contrário, exactamente, do que desejava,
destruiu ponto por ponto o seu ideal.
É por isso que ele é um monstro à parte,
ou seja, duas vezes monstro, pois até
o seu patético é monstruoso.
Emil Cioran 

22.5.14

A nossa casa




Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saiem alguns destes ruídos
          domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que
          os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que
          significam certas palavras como a palavra
          paz
Ruy Belo

Um café ? Dois.

       
  O primeiro bom pensamento do dia, um dia que tem tudo, ainda intacto, um pequeno sol este café, que me transporta para as antigas lojas de Lisboa, onde o café em grão se arrumava em lotes aromáticos até ao tecto, e que era moído na altura, e espalhava esse aroma inquieto, que aumenta o ritmo do coração, por ruas e vielas ensolaradas. 
   Perguntam-me, os meus amigos o que faço aqui, não conseguem imaginar uma citadina no meio do campo, sem horários nem correrias, e o cinema, e os espectáculos, e as exposições.O certo é que até hoje, um ano que era sabático, para fazer uma rectrospectiva da vida, já foi ultrapassado, e nunca me aborreci. Mais ainda, não tenho tempo a perder, nunca sei onde tenho o telefone, e deixei de usar relógio, porque o tempo agora é medido pelo sol.
    Cioran dizia que o tédio é precisamente um problema com o tempo que não passa, e isso nunca me aconteceu aqui.
    Viver no campo, pode ser uma opção de vida, pode ser conciliável com o que é imperdível numa grande cidade, que está a hora e meia da nossa porta. É tudo uma questão de valer a pena. 


   Iniciar o dia com um café, a olhar para o jardim, para a luz que invade tudo, sentir esse sabor breve. Repeti-lo de preferência enquanto planeio mentalmente as tarefas; pegar num livro, arrumar coisas daqui e dali, de chávena na mão.

Casa no campo




Escultura campestre

Aprender a amar

   Assim se passa em nós com a música:em primeiro lugar tem que se aprender a ouvir uma forma, uma melodia, discerni-la pelo ouvido e distingui-la, isolá-la e delimitá-la como uma vida em si; depois é preciso esforço e boa vontade para a suportar, apesar da sua estranheza, praticar a paciência com o seu aspecto e expressão, o bom coração com a sua singularidade; finalmente, chega o momento em que estamos habituados a ela, em que a esperamos, em que pressentimos que nos faria falta, se nos faltasse; e então opera ela o seu domínio e fascínio mais e mais, e não acaba antes de nos tornarmos os seus humildes e enlevados amantes, que já não querem mais nada do mundo, senão a ela e só a ela.
   Mas não se passa assim connosco só com a música: precisamente assim aprendemos nós a amar todas as coisas que amamos agora. Acabamos sempre por ser recompensados pela nossa boa vontade, a nossa paciência, equidade, ternura para com o que é estranho, na medida em que essa estranheza lentamente despe o seu véu e se revela com uma nova e indizível beleza: é a sua gratidão pela nossa hospitalidade. Também quem a si própio se ama, tê-lo-á aprendido por esta via, não há outra. Também é preciso 
aprender o amor.
Nietzsche/A Gaia Ciência

21.5.14

Heroína do periférico

Serei uma heroína do periférico.
Não serei acusada por botões isolados,
Buracos nos calcanhares das meias, as mudas e lívidas faces
Das cartas não respondidas, seladas como um caixão num
  cofre de cartas.
Não serei acusada. Não serei acusada.
O relógio não dará pela minha falta, nem estas estrelas
Cravadas no seu posto, abismo após abismo.

Sylvia Plath/Três Mulheres

Leve quatro, pague três

    Galinhas felizes põem muitos ovos, de grandes e brilhantes gemas, e é preciso alguma imaginação para ir variando as receitas, e muitos amigos a quem dar... ovos.
     É aqui que entra o Pantagruel, essa lista telefónica, com todas as moradas de iguarias, o que era mais verdade no tempo das nossas avós. Havia um livro desses em casa da minha, já muito usado, com muitas anotações, outras receitas dentro, e alguma memória de manteigas e margarinas, passas e cerejas cristalizadas. Alguém ficou com ele, e deve fazer uso das receitas intemporais e sobretudo, das anotações com a caligrafia perfeita dessa cozinheira de mão-cheia que era a minha avó.
     Pois um dia deu-me uma nostalgia tremenda,e resolvi comprar o meu Pantagruel. Esteve, como qualquer livro, a aguardar um bom motivo para ser, neste caso, usado; o de experimentar receitas de sobremesas que levassem ,muitos ovos.
     Então, na 74ª edição, verifico desproporções acentuadas nas quantidades, tais como 225gr de açúcar para 3 gemas e três ovos, nas Brisas do Lis, 5oogr de açúcar para 16 gemas, nos quindins da Baía, e quase ausência de farinha, no bolo de laranja. Para conseguir fazer um doce que fosse apresentável tive que alterar as doses, diminuir quase para metade o açúcar, aumentar a quantidade de gemas e acrescentar farinha ao bolo de laranja.
      Abençoadas anotações da minha avó.

Quindim da Baía
    

Hora de almoço

« (...) É facto curioso o dos romancistas terem uma forma particular de nos fazer crer que os almoços se tornam invariavelmente memoráveis por qualquer dito mais espirituoso que se pronunciou, ou qualquer acto muito inteligente que se praticou. Contudo, raramente se referem ao que se comeu. Faz parte da convenção do romancista não mencionar a sopa, o salmão e o pato, como se a sopa, o salmão e o pato não tivessem importância, como se nunca ninguém fumasse um charuto ou bebesse um copo de vinho. Tomarei, no entanto, aqui a liberdade de desafiar essa convenção, e de vos dizer que nessa altura o almoço começou com linguados imersos num molho espesso e branco, preparados pelo cozinheiro da universidade.(...)»
Virginia Woolf/Um quarto que seja seu

As tais três coisas...

     Pois é, como deixou escrito José Martí, poeta cubano, mas em relação às mulheres parece ser mais verdadeiro assim: tratar a árvore, cuidar do filho e ler um livro, se tiver tempo.
             A escrita, ou outra actividade artística, debate-se com um problema, ter tempo e espaço, e nós, esses seres maravilhosos e altruístas, perdemos muito tempo e não somos donas, de casa nenhuma.
     Comportamo-nos como uns Adamastores cor-de-rosa, sem consciência do seu poder, rugindo, mas ensinando sempre o caminho do Cabo da Boa Esperança, sem perder essa capacidade de se comover e de chorar. 

O Adamastor cor-de-rosa

Joana Vasconcelos

Tarde demais

                   
Muito cedo na minha vida foi tarde demais. Aos dezoito anos era já tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal.(...)
O Amante/Marguerite Duras 
                               

20.5.14

Não te esqueças

        

Translação

                              

Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.
Alberto Caeiro            

A pensar em ti

Outro dia ia jurar que me chamaste. Mãeeee...?! Esse teu mãe ligeiramente arrastado, um mãe que era forte no início e acabava entre a dúvida e a expectativa. Lembro-lhe o timbre à espera de resposta, e depois um silêncio, que tinha um gesto dentro, um sorriso dentro; um Mãe que era assim: eeee... 
Lembro-me das manhãs apressadas, dos teus sons tão cedo, da água que se demorava no chuveiro, do som do micro-ondas (entre nós microwave device), das portas que batiam com dúvidas sobre a cor da gravata, das gavetas num vaivém - e eu às voltas na cama -, dos sapatos zangados com o soalho, - e eu quase a praguejar - por fim a porta da rua fechava com estrondo, os passos diminuíam na escada... Finalmente, silêncio. Mas era um silêncio benigno de até já, de até logo. De repente desapareceu o som. Amanhece e não há nenhuma luta a travar aqui. Por isso acordo devagar. Sobra-me casa pelos braços e pelas pernas, sobra-me casa no olhar e no pensamento, uma casa XXL que vive noutro lugar, que mudou de país. E de continente. Outro dia ia jurar que me chamaste, mas agora já sei que vivo apenas no meu silêncio, mas ainda com a tua música dentro.  
   

Coração acordado

       

Vamos


Sempre


       

« Inscrevi o teu nome na pedra com um buril. Essa casa era mágica. Todos os espaços tinham uma forma trapezoidal. As janelas do quarto davam para a copa das árvores. Na primeira noite, não dormimos. Cada um escutava a respiração do outro. Depois um rouxinol pôs-se a cantar e um outro, mais ao longe, respondia-lhe. Falávamos muito pouco. Eu passava o dia a cavar a terra e levantava os olhos de tempos a tempos para a janela do quarto. Mantinhas-te lá, imóvel, de olhar fixo num ponto longínquo. Estou certo de que trabalhavas no sentido de domar a morte, a fim de a combateres sem receio. Eras tão bela e decidida no teu silêncio que eu não conseguia imaginar que pudesses renunciar a viver.»

André Gorz/Carta a D. História de um amor 

19.5.14

Se fosses pássaro

   Se fosses pássaro baterias as asas para destruir a armadilha
 Se fosses insecto deixarias círculos apenas ao redor da luz
 Se fosses abelha farias zumbir a revolta
 Mas és voo pela sombra
 Se fosses formiga carregarias a ordem, armazenarias a fadiga
 Se fosses flor polinizarias a terra
 Serias coroa incorruptível
 Se fosses flor através das estações

 Daniel Faria/Poesia                                                   


                      

Fardos

 




   Pastagem natural, corte com a gadanha, na melhor altura de desenvolvimento das plantas, para aproveitar ao máximo o valor energético das gramíneas e leguminosas; período de secagem de dois dias no solo, seguido do uso do enrolador que areja o feno ao virá-lo e o arruma em filas compridas, preparando-o para ser enfardado. Depois é a vez do trabalho árduo de ir buscar os fardos, que ficam amontoados sobre a terra, e de armazená-los  para o inverno e para os  períodos de carência.
    São dias em que o trabalho acaba muitas vezes já de noite, e que os únicos sons que nos chegam são os desses homens solitários, montados nas suas máquinas, numa luta hercúlea para aproveitar ao máximo essa dádiva da natureza, antes que condições climatéricas adversas deitem tudo a perder.
     Nas estradas secundárias o regresso a casa faz-se à luz de enormes enfardadeiras e tractores, de estrelas e lua cheia.