Atalhos de Campo


22.11.17

torre

A Torre do Carbureto, que surge no meio da Buna e cujo cume raramente se vê no meio do nevoeiro, fomos nós que a construímos. Os seus tijolos foram chamados Ziegel, briques, tegula, cegli, kamenny, bricks, téglak, e foram cimentados pelo ódio; o ódio e a discórdia, como na Torre de Babel, e é assim que a chamamos: Babelturm, Bobelturm; e odiamos nela o sonho demencial de grandeza dos nossos patrões, o seu desprezo por Deus e pelos homens, por nós homens.

E ainda hoje, como no conto antigo, nós todos sentimos, e os próprios Alemães sentem, que uma maldição, não transcendente e divina, mas imanente e histórica, paira sobre essa construção provocatória, alicerçada na confusão das linguagens e erigida a desafiar o céu como uma blasfémia de pedra.

Primo Levi / Se isto é um homem

limpo



(...)
Se quisesse eu próprio falar de um lugar de consolação
recente na minha vida teria de referir o campo de
concentração de Westerbork, na Holanda, onde estive
em peregrinação o verão passado. Foi nesse epicentro
da dor que, ao lado de milhares de outros mártires do 
século XX, esteve prisioneira Etty Hillesum. Recordo-me
de passar um par de horas, deitado sobre a erva, a 
escutar o vento. Apenas isso. Mas senti uma comunhão
profunda com o grito e o perdão que se pode ler quer 
nos escritos de Etty, quer no destino silencioso de
tantas vidas. E, sem que as pudesse deter, as lágrimas
lavaram-me o rosto várias vezes. As vezes necessárias
para que ficasse limpo.

José Tolentino Mendonça / Que coisa são as nuvens