Atalhos de Campo


17.7.18

O motoqueiro

Vi entrar um vulto negro, curvado sobre a mão direita. Acabei de cair doutora, disse o homem, agastado. Veja o que me aconteceu. Esticou o braço e voltou a palma da mão para cima. Um golpe profundo sangrava em diagonal, intersectando todas as linhas da mão, incluindo a da vida. Acho que deve ir ao hospital de imediato para lhe suturarem isso e levar uma injecção de antibiótico, talvez até a vacina do tétano, porque a ferida é profunda. Então a doutora não me trata isto? Recusa-se a tratar-me, disse o homem, levantando-se da cadeira onde se deixara cair. Posso fazer-lhe um curativo, mas insisto que a seguir deve ir ao hospital. 

Foi estranho tratar ali uma pessoa, um acidentado. Lavei e desinfectei a ferida ao homem, que se ia queixando com razão, e por último fiz-lhe um penso, cobrindo-lhe a mão com uma ligadura e adesivo perfurado. Percebi que deixara o doente mais confortável e animado. Quanto é?, perguntou no fim. Não tem que pagar nada, eu não trato pessoas, foi uma excepção. Não se esqueça que deve ir quanto antes ao hospital.