Atalhos de Campo


13.12.17

historinha de Natal com azul murano

Crava em mim os olhos transparentes. O sorriso é aberto e cuidado quando me pede um papel para fazer o croqui. Dois brincos exuberantes baloiçam nas orelhas como espanta-espíritos, exibindo budas em fantasia. Quando inclina a cabeça sobre o tampo da secretária onde apoia o papel para desenhar o trajecto (explicando-se o melhor possível no seu inglês entoado em alemão), reparo na perfeição do enrolamento do turbante, que é do mesmo azul que lhe oscila no olhar. Depois estende-me uma seringa quase cheia de um líquido translúcido, e pede-me, apontando a graduação com uma tremura, para ir ao domicílio dar um mililitro da substância que desconheço, em dias alternados, num total de nove vezes. Um desses dias é o dia de Natal. Ao aperceber-me disso digo-o em voz alta, acrescentando mais uma ruga à minha concentração, na esperança que entenda, mas não desiste, dizendo que é muito importante para a cadela que se siga o tratamento à risca, como frisou o seu colega. Aceito, embora suspeitando que não seria nada de grave atrasar um dia, porque sei que se algo correr mal esse atraso vai ser responsabilizado. A seguir premeia-me, sugerindo que no futuro posso vir a assistir os seus animais. Está tudo combinado e prepara-se para sair. Ao passar a porta levanta o saco que leva na mão, onde está escrito Peggy Guggenheim. Estive este ano na bienal de Veneza e visitei a espantosa colecção de arte que Peggy deixou, diz. Sabia que no jardim do museu, ao lado das cinzas dela, estão também as cinzas dos seus catorze Lhasa apso, com os nomes, as datas de nascimento e morte de cada um? Um monumento lindo, que infelizmente não consegui fotografar. 

Ah!, ia-me esquecendo, a cadela é agressiva, leve qualquer coisa para lhe atar o focinho.


as dos outros Natais:
- com Menino Jesus
- com amarelo limão
- com azul Klein
- com Aloe Vera