Atalhos de Campo


16.1.18

é brisas


Meu córrego é de sofrer pedras
Mas quem beijar seu corpo
é brisas...

Manoel de Barros 

15.1.18

córrego

Enfio-me por caminhos estreitos e pedregosos que separam pequenas propriedades, algumas abandonadas e tristes, com velhas árvores sobreviventes sufocadas por matagal. Tenho feito todos os dias mais ou menos o mesmo trajecto, com uma trela em cada mão e uma cadela à solta (por ser obediente), e que toma a dianteira, conhecedora que é do meu objectivo: chegar à casa do córrego. E o rosto da casa surge como sempre, muito pálido e hermético, parcialmente oculto pelo misterioso toucado das árvores. O córrego, que continua subterrâneo e venoso (para poder haver acesso à garagem), reaparece mais à frente, seguindo a vedação e impondo-lhe uma fronteira viçosa pela irrigação natural. Um letreiro perto do portão diz "Cuidado com o Cão", mas não há cão, há sim duas tigelas grandes e vazias sob o alpendre, colocadas bem em evidência ao lado da porta principal. Umas socas em madeira, enormes e a estrear, estão também à entrada, como se alguém tivesse acabado de as descalçar, vindo do jardim. E é tudo, dia após dia. Portadas fechadas num sono profundo, um limoeiro desesperado a lançar limões para o chão, o átrio varrido pelo vento. É evidente que os indícios de vida são para evitar um assalto. Talvez as socas nem sejam do número que calça o proprietário, mas, assim grandes, intimidam qualquer candidato a intruso. Do terreno de fronte elevam-se vozes de dois homens que chegam acompanhados por um cão preto, e começam a cortar vários troncos. Está na hora de voltar, e para me afastar rapidamente do som da motosserra, resolvo explorar outro caminho no regresso, que me leva a uma clareira silenciosa, onde vive um colmeal. Ali me detenho um pouco, como se tivesse chegado a um santuário. É provável que haja mais por perto, o que explica o grande número de abelhas que costumo ver a abastecer-se no jardim. E à medida que me aproximo de casa vou apanhando gravetos para acender a lareira, que guardo no pouco espaço que me sobra entre os dedos, até passar pelo terreno onde está um cavalo que junta um relincho de saudação ao arfar dos cães e ao rolar das pedras sob as botas, e que me garante que já cheguei.