Atalhos de Campo


21.6.18

boa pessoa

A mulher que atropelou o cão apareceu em alvoroço, a gesticular e a falar alto. Acabo de atropelar um cão, tenho-o ali no carro, venha vê-lo, ordenou. Mas, ah!, vagou aqui um lugar, guarde-mo, que eu vou buscar o carro. Fiquei a guardar o lugar, e o carro que tinha atropelado o cão estacionou, ali mesmo, diante do consultório. A mulher foi primeiro verificar se havia alguma amolgadela em consequência do embate, e só depois abriu a porta traseira explicando que tinham sido os enfermeiros, de uma ambulância que seguia atrás, que a tinham ajudado a colocar o cão dentro do carro. Mas não o quiseram transportar, disse. Nem podiam, expliquei-lhe, uma ambulância para pessoas não pode transportar animais. Ainda bem que a ajudaram, teve sorte. Olhei para o cão e reconheci-o. Já o tinha visto várias vezes a atravessar a estrada que faço diariamente. Um cachorro estouvado a correr atrás de outro cão igual, escanzelado, que deveria ser a mãe. Tive pena, essa noite o cachorro não voltaria para casa, dariam por falta dele, e também não voltaria nos dias seguintes, porque estava ali deitado sobre aquele assento, embrulhado num pano descartável. Mas a cabeça tombara. Num mau prenúncio, voltara-se para o chão, e da narina direita pingava sangue a fio, que ia ensopando a pouco e pouco o tapete. Não se mexia, não gemia, apenas o tórax oscilava ao ritmo da respiração ainda ofegante. Os olhos semi-abertos iam perdendo o brilho a conta-gotas, como dois caroços de azeitona abandonados na borda de um prato. Escoriações várias cobriam-lhe as patas, inertes e flectidas sobre o banco. Está a morrer, disse, o melhor era abreviar esta situação com uma injecção. E tenho que pagar?, pergunta a mulher que atropelou o cão. Sim, respondo-lhe, apenas um valor simbólico. Ai o cão atropelou-me o carro, e eu ainda tenho que pagar? E eu, retorqui, tenho que pagar porquê? E depois interrompi o breve silêncio para lhe dizer que a seguir deveria ir entregá-lo no Canil Municipal mais próximo. Fui preparar a injecção e trouxe a seringa comigo para a rua, cosida ao corpo. Mas a mulher mudara de ideias. Já não é preciso. Se afinal tenho de ir levá-lo ao canil, então peço que resolvam lá o assunto. Entretanto toda a sua expressão se alterara. A ansiedade dera lugar a uma calma lúcida, e o sangue fugira-lhe do coração e do cérebro para se refugiar nos intestinos, originando uma longa cólica. Pelo menos era o que transparecia do seu rosto, de repente incrivelmente flácido e cinzento, de onde tinham, até, desaparecido os olhos.    

hão de ver

tocou a meia noite de verão